Roberto Mendes grava em voz e violão a identidade musical do Recôncavo

Roberto Mendes é um dos grandes compositores brasileiros. Sua fonte vem de um dos mais nobres rincões culturais do país, onde o negro se estabeleceu e ali construiu parte significativa da nossa história.
Nascido, criado e ainda vivendo em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, Roberto Mendes é incansável na observância da chula e do samba de roda, manifestações essenciais para entender os caminhos percorridos pela formação musical brasileira.

Em seu 11° álbum autoral, que está sendo lançado nas plataformas digitais a partir do dia 10 de setembro, o músico gravou nove faixas mostrando uma síntese dessa sua intimidade com aquele universo tão rico.

Trata-se de uma obra relevante – e a ser estudada – pois coloca o violão na condição de um instrumento mais percussivo e menos harmonizado, como é o padrão, executado com composições sublimes.

Origem no Cabula
O título do trabalho, Na Base do Cabula, leva à dimensão da proposta. “Cabula é a ritmia que sustentava o batuque do Recôncavo, 200 anos antes das violas machete e 3/4 chegarem ao Brasil”, explica Mendes.

O Cabula, estrutura rítmica trazida pelo povo bantu no século XVII, se encontrou com instrumentos de cordas provenientes da Ilha da Madeira no século XIX trazidos pelos sudaneses.

No caso da chula, que era um canto de labor nos extensos canaviais do Recôncavo Baiano, esse encontro da viola com o batuque manteve o tambor com forte influência harmônica – assim como também no samba de roda, depois adaptado a várias vertentes do samba que se conhece hoje.
“Os violeiros do Recôncavo não harmonizam como violonistas, eles pensam como tocassem tambor. Não tem compromisso de harmonizar. A melodia nasce antes com o tambor”, explica Mendes.

Essa característica musical histórica permeia o trabalho de Roberto Mendes em letra e música. E é muito bem ressaltada nesse novo disco, Na Base da Cabula, com a gravação somente em voz e violão.

“Para mim é uma experiência única. Estou usando o violão para tocar chula como percussão ferida porque você fere com os dedos. O violão é por natureza um instrumento de percussão. Uma extensão de seu corpo.”

É a primeira vez que Mendes grava em voz e violão. Em 1994 ele fez um disco com dois violões: o dele e o de Paulo Dáfilim – este trabalho foi produzido por Maria Bethânia, conterrânea de Roberto Mendes e grande intérprete de sua obra.
Álbum natural e cru
A produção desse novo disco foi de seus dois filhos violonistas: Leonardo e João.

“Desde cedo ouço as pessoas falarem do jeito que meu pai toca violão. É um jeito muito dele, desenvolvido a partir do contato e a vivência com os violeiros e batuqueiros do Recôncavo baiano”, conta Leonardo, que hoje acompanha Virgínia Rodrigues (e também produz), Tiganá Santana, entre outros.

“O disco é muito natural e cru. É o que estávamos buscando. Havia uma necessidade de um registro mais clarificado do violão dele, da escola do Recôncavo”, ressalta João, integrante do grupo baiano Pirombeira e também músico acompanhante do primeiro time da MPB.
Leonardo conta que o pai foi maturando a técnica de tocar e cantar. “Nesse trabalho ele está por inteiro. E a grande ligação é o Cabula, presente em toda sua obra desde o primeiro disco”.

O disco apresenta a primeira música de Roberto Mendes com João, chamada Deu Foi Dó: “A música foi feita antes de ir morar em são Paulo (ele vivia em Santo Amaro onde nasceu). Uma espécie de saudade antecipada”, conta o filho. Essa música já foi gravada pelas cantoras Bia Góes e Nara Couto.
As outras faixas inspiradoras do disco são com parceiros habituais: Jorge Portugal, Capinan, Nizaldo Costa, Jota Velloso e Nelson Elias.

A primeira faixa, Baianos Luz, feita na década de 1980 com Jorge Portugal, é um agradecimento ao legado de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Trata-se de uma canção bem estruturada em letra e melodia. Ambos participaram dos primeiros discos de Roberto Mendes, uma referência no meio musical da Bahia já naquele tempo.
Carta Capital

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