PSL ouve ‘aula’ de Paulo Guedes antes de puxão de orelha de Bolsonaro

A exaltação que tomou conta na última semana de parte da bancada do PSL, com exposição pública e histriônica de desavenças, vai ser passada em revista nesta quarta-feira, quando os 56 futuros parlamentares terão encontro com Jair Bolsonaro e tentarão chegar a um consenso sobre as primeiras tarefas que terão de desempenhar diante do governo de seu correligionário e principal líder. Fenômeno eleitoral, o PSL é um marco na história dos partidos conservadores brasileiros. A sigla  teve uma ascensão meteórica, na cauda das redes sociais e da onda ultradireitista que elevou Bolsonaro ao poder, e agora prova, às pressas, o figurino governista, com dor e delícia que o traje implica.

Um dia antes do encontro, os deputados – um amálgama heterogêneo de militares da reserva, policiais, outsiders, descendente da família real brasileira, ex-nadador olímpico – tiveram uma espécie de aula com o economista Paulo Guedes, futuro ministro da Economia. Trataram da desburocratização da máquina pública e das reformas econômicas planejadas –algumas impopulares e que precisam, antes de mais nada, do voto do Congresso para avançar. “O ponto fundamental para ser trabalhado é a futura reforma da Previdência, mas não antecipou quais seriam os temas ou as bases do que seria levado para a votação no Congresso”, afirmou o deputado federal Major Olimpio Gomes.

Antes de a base parlamentar ter as primeiras aproximações com a profunda agenda liberal do czar da Economia, a conversa predominante era sobre a falta de entrosamento e a luta intestina que ganhava corpo no partido, que renderam uma puxada de orelha pública do ex-presidente do PSL, Gustavo Bebianno, um dos principais assessores de Bolsonaro e futuro ministro da Secretaria-Geral da Presidência, que deve ser repetida pelo próprio presidente eleito. Bebianno usou um ditado popular para frear os ânimos dos neófitos em Brasília: “Pato novo não mergulha fundo”. Ressaltou que os “marinheiros de primeira viagem” se depararão com uma cidade que tem um “ambiente inóspito” e que deveriam agir com cautela. “O partido tem de estar unido e esses novos deputados precisam ter consciência. A grande maioria foi eleita por conta do Jair Bolsonaro. Se não fosse a onda Bolsonaro, a grande maioria não teria sido eleita. Essa é que é a verdade”.

O principal foco de conflito se deu em torno da jornalista e deputada federal eleita Joice Hasselmann, que incendiou o grupo de WhatsApp dos futuros colegas ao criticar Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, e de demonstrar um racha no partido. Além disso, ela queria assumir um protagonismo que até então não tinha. Acostumada com as redes sociais – assim como a maioria dos eleitos pela sigla –, nas quais recebe mais elogios do que críticas, ela tem se apresentado como uma articuladora do presidente eleito no meio político, o que causou ciúmes entre parte dos parlamentares que já têm mandato.Joice disse que a articulação no Legislativo estava abaixo da “linha da miséria”, chamou Eduardo de “infantil” e que ele deveria “crescer”. Em reposta, Eduardo disse que a fama dela era de louca.

Nesta terça-feira, contudo, os dois litigantes posaram juntos para uma foto, compartilhada por ela em suas redes sociais na qual estão com sorrisos estampados nos rostos e fazendo o gesto de coração com as mãos. Ele com a direita, ela com a esquerda. Na legenda ela diz: “A paz pelo Brasil, pelo governo @jairmessiasbolsonaro e pela nossa bancada do @psl_nacional. Irmão são assim”.

A dúvida é se a trégua será capaz de dissolver o clima nada amistoso que se espalhou entre integrantes da bancada. “Estou com o nosso líder Eduardo. Espero que essa situação se resolva o quanto antes”, disse a deputada eleita Carla Zambelli ao EL PAÍS no fim de semana. “Qual grande partido não tem discussões. Elas são naturais. Na hora que for necessário, estaremos todos unidos”, ponderou o presidente da legenda e deputado federal reeleito, Luciano Bivar. Pensamento parecido com o do deputado eleito Luiz Philippe de Orleans e Bragança, herdeiro da extinta monarquia brasileira. “Os debates são salutares. Me espanta que outras legendas não tenham essas discussões internas”.

Esforço contra o isolamento

Enquanto os deputados do PSL não chegam a consensos, Bolsonaro escalou o deputado Delegado Waldir para iniciar as negociações com outras bancadas na Câmara e o senador eleito Major Olímpio, no Senado. Na Câmara, apenas um partido declarou-se como membro da base de Bolsonaro, o PR, um dos que mais tiveram investigados em escândalos de corrupção como a operação Lava Jato e o mensalão petista. No Senado, ainda não houve avanços notórios. “Como somos novatos no Senado, estamos sendo bem recebidos por todos, mas ainda não fechamos com ninguém formalmente na Casa”, ponderou Olímpio.

A principal dificuldade dos deputados do PSL é furar uma espécie de bloqueio que tem sido feito no qual a maior parte das legendas querem isolá-los juntamente com o PT. A ideia é evitar que os dois partidos que mais elegeram deputados (foram 56 petistas e 52 peesselistas) dominem a composição das principais comissões e da Mesa Diretora. “A bola ainda está rolando. É cedo para dizer quem serão nossos aliados”, amenizou Eduardo Bolsonaro

A profundidade do mergulho de cada um desses novatos será testada apenas em fevereiro, quando tentarão eleger um aliado de Bolsonaro para as presidências da Câmara e do Senado. Até lá, por mais que digam que estão em perfeita sintonia, conviverão com queixas externas e alfinetadas internas, como a que Orleans e Bragança deu em dois de seus colegas pelo Instagram. Ao fotografar Heitor Freire e Nelson Barbudo, dois futuros deputados, ele escreveu em seu Instagram: “Selfies e lives. Vou ter que me acostumar.”

Investigação sobre ex-assessor de filho de Bolsonaro muda de mãos

Depois de descobrir que um ex-assessor do filho do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), movimentou “atipicamente” 1,2 milhão de reais em suas contas, a Procuradoria da República no Rio de Janeiro decidiu encaminhar a investigação sobre eventual irregularidade no caso para a esfera estadual. Agora, caberá a algum promotor vinculado ao Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro abrir qualquer procedimento de apuração, se assim achar necessário. O órgão de investigação local costuma se destacar por sua atuação contra o narcotráfico, e raramente atua em grandes operações contra corrupção de agentes políticos.

Na semana passada, um relatório do Conselho de Controle de Atividade Financeira (COAF) revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo apontou que Fabrício José de Queiroz, um policial militar que era motorista e segurança do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), teria movimentado essa quantia milionária em suas contas sem qualquer justificativa plausível. Como policial lotado na assessoria parlamentar do gabinete de Flávio, Queiroz recebia pouco mais de 21.000 reais por mês. Ou seja, em um ano, teria de ter uma movimentação de aproximadamente 252.000 reais. Valor 4,7 vezes inferior ao movimentado por ele. Além disso, foi constatado que o policial depositou 24.000 em cheques para a esposa do presidente eleito e madrasta de Flávio, Michele Bolsonaro. O ex-assesor também recebeu transferências bancárias de outros sete servidores da (Alerj) que passaram pelo gabinete de Flávio Bolsonaro, segundo a Veja.

Queiroz se tornou alvo da apuração depois que se iniciou a Operação Furna da Onça, um desdobramento da Lava Jato que, no dia 8 de novembro, resultou na prisão de dez deputados estaduais suspeitos de receberem uma mesada ilegal dos governos de Sergio Cabral e de Luiz Fernando Pezão (ambos do MDB e que também estão presos). Flávio Bolsonaro não está entre esses investigados. Com o desenrolar dessa operação, o COAF passou a monitorar as movimentações financeiras de servidores da Assembleia Legislativa do Rio e constatou que 22 deles movimentaram juntos a quantia de 200 milhões de reais. Um dos que tiveram uma movimentação atípica foi o policial militar. Os nomes dos demais funcionários e ex-servidores não foram divulgados.

Como justificativa para transferir as apurações para a esfera estadual, a Procuradoria da República no Rio informou que na relação do COAF não havia nenhum de seus alvos. “Como o documento indicava a existência de movimentações atípicas de outras pessoas que não eram alvos da referida operação, o MPF na 2ª Região (RJ/ES), diante da ausência de indícios que justificassem alguma apuração em âmbito federal relacionados a tais nomes, remeteu o material ao MP/RJ, para que o órgão apure eventuais ilícitos de competência estadual cometidos na Alerj”, declarou a procuradoria em nota emitida na noite desta segunda-feira.

Desde que o assunto veio à tona, tanto o deputado Flávio, recém-eleito senador, quanto seu pai, Jair Bolsonaro, têm negado qualquer irregularidade. Ambos já declararam confiar em Queiroz, mas disseram que é ele quem tem de se explicar. O presidente eleito, contudo, deu uma breve explicação, no sábado, sobre os valores que entraram nas contas de sua mulher. Conforme ele, era parte do pagamento de um empréstimo feito por Jair Bolsonaro ao policial, de quem é amigo há 34 anos. O ex-assessor não se manifestou até o momento.

Em declaração à imprensa no sábado, Bolsonaro afirmou que emprestou 40.000 reais ao amigo e dividiu esses pagamentos em dez cheques de 4.000 reais. Pediu que os valores fossem depositados na conta de Michele porque ele nem sempre consegue ir ao banco. Afirmou ainda que não declarou esse empréstimo à Receita Federal. “Se eu errei, eu arco com a minha responsabilidade perante o fisco. Não tem problema nenhum”.

A proximidade entre as duas famílias era tamanha que uma filha de Queiroz, chamada Nathalia, chegou a trabalhar no gabinete parlamentar de Jair Bolsonaro em Brasília. Pai e filha foram exonerados de seus cargos comissionados em 15 de outubro, dois dias antes de a Procuradoria da República ingressar com os pedidos de prisão da Operação Furna da Onça.

Esse foi o primeiro constrangimento envolvendo o futuro mandatário do país desde que ele foi eleito em outubro com um forte discurso de combate à corrupção. O assunto já rendeu munição para opositores dele no Congresso. O deputado Paulo Pimenta (PT-RS), por exemplo, chamou no plenário da Câmara o caso de “Bolsogate” e cobrou explicações mais claras dos suspeitos. “Isso é um escândalo gravíssimo. Nós estamos falando da família do presidente eleito. Nós estamos falando de um assessor do gabinete dele que era o caixa, que movimentou em 12 meses mais de R$ 1,2 milhão. Essa história está muito esquisita”.

No plenário, nenhum aliado de Bolsonaro o defendeu enquanto era atacado pelo petista. Todos os oito parlamentares do PSL com mandato atualmente estavam ausentes da Câmara, porque participavam da diplomação do presidente eleito no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “É curioso que o COAF não se empenhou da mesma maneira para investigar a gestão petista. Agora, são só discursos para atacar Bolsonaro, que não tem nada a ver. Qualquer investigação vai mostrar que não há nada de errado”, disse o deputado eleito pelo PSL do Mato Grosso, Nelson Ned Previdente, conhecido como Barbudo. O COAF participou de todas as grandes investigações de escândalos políticos recentes, do mensalão à Lava Jato.

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