Orçamento aperta e profissionais precisam recorrer a ‘bicos’ para complementar renda

A professora Amanda Santos, de 23 anos, encontrou no trabalho extra como corretora de redação a oportunidade de ter acréscimo mensal para o salário que recebe no colégio onde ensina, no bairro do Cabula, em Salvador. Formada há três anos em letras, a jovem consegue, com os chamados “bicos”, dobrar a renda financeira do mês, enquanto espera a melhora do cenário de emprego no País.

A exemplo de Amanda, para completar a renda, 64% dos brasileiros recorreram a “bicos” no primeiro semestre de 2018, resultado 7% maior que o registrado no mesmo período do ano passado (57%), segundo pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), divulgada no dia 23.

“Era comum, há alguns anos, concluir o ensino superior e ficar empregado em alguma instituição de ensino, mas hoje isso não acontece. Como a renda obtida no colégio é insuficiente, os ‘bicos’ ajudam a melhorar a parte financeira”, conta Amanda.

“Sobrenome”

No processo de formação em direito, o estudante Patric Gouveia, 23 anos, faz “bicos” com ações promocionais realizadas em espaços de eventos e shoppings da cidade. “Meu sobrenome é bico!”, diz, bem-humorado, o jovem já se vestiu de Elvis Presley a integrante dos Beatles, em trabalhos temporários.

“O dinheiro dos ‘bicos’ serve para comprar livros e pagar o transporte. Como dependo de eventos, os valores mensais variam muito. Se tem mês que consigo R$ 2 mil, no outro posso ficar apenas com R$ 400”, explica Patric.

Para Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, apesar de o setor de comércio e serviços gerar oportunidades de empregos, ele também é o que gera a maior parte dos ‘bicos’, devido à falta de confiança dos empresários do segmento. “Neste momento de recuperação de crise econômica, os ‘bicos’ aparecem como oportunidades de ter um acréscimo financeiro ao salário ou se manter enquanto espera a recolocação no mercado de trabalho”, diz a economista.

Já aposentada, a secretária Lucenia Santos trabalha na SPM e ainda faz “bicos” com feijoada (Foto: Shirley Stolze l Ag. A TARDE

Aposentados

A secretária Lucenia de Carvalho, 63 anos, que atualmente trabalha na Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), faz “bicos” com a produção de alimentos para festas e comemorações. Aposentada por tempo de serviço, ela consegue completar a renda mensal em até R$ 4 mil com os contratos temporários para fazer comida típica, como caruru, sarapatel e feijoada. “Os bicos geram um acréscimo para o valor que ganho com a aposentadoria e o trabalho na secretaria”, conta Lucenia.

De acordo com Evando de Sousa, diretor da Associação Brasileira do Trabalho Temporário (Asserttem), mesmo diante da necessidade de maior renda, o trabalhador deve procurar “bicos” que possam ser realizados de forma legal, baseados em contratos temporários.

“O importante é fazer os serviços dentro da legalidade, assim eles podem até gerar oportunidades de contratação efetiva. A segurança para acidentes de trabalho e pagamento certo são outros fatores favoráveis”, diz Sousa.

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