Mulheres são maioria nas urnas, mas minoria no poder: 7 dados que explicam por que a política brasileira ainda é dominada por homens

O Brasil chega ao ciclo eleitoral de 2026 com um cenário que exige reflexão. Embora as mulheres sejam a maioria da população (51,5%) e do eleitorado (52,47%), conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a presença feminina nos espaços de decisão ainda não reflete esse peso. No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, ouvimos parlamentares e estudiosas para fazer uma reflexão sobre o que muda quando o poder é ocupado por mulheres e como elas podem protagonizar essas eleições.

Mesmo com tanto voto, as mulheres ocupam apenas 18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 15% no Senado. Na Bahia, as eleições de 2024 mostraram que a mudança é lenta. Foram eleitas 60 prefeitas nos 417 municípios baianos — um aumento de 11% comparado a 2020.

Vitórias expressivas como as de Sheila Lemos (União), em Vitória da Conquista, e Débora Regis (União), em Lauro de Freitas — ambas com quase 60% dos votos — mostram que as mulheres são fortes candidatas em cidades grandes. Mesmo assim, os números gerais ainda pesam para o lado masculino: 85% das prefeituras da Bahia ainda serão ocupadas por homens.

Para a historiadora e socióloga Ana Paula Aguiar, autora de História, Sociologia e Filosofia do Sistema de Ensino pH, a conquista do voto feminino, que completou em fevereiro de 2026 94 anos, deve ser um momento de mobilização.

“O direito ao voto foi um passo essencial na ampliação dos direitos das mulheres, mas ainda há muito a ser feito para garantir equidade política. Projetos educacionais podem desempenhar um papel fundamental na formação de cidadãos conscientes da importância da participação feminina na democracia”, ressalta ela, que defende que o incentivo à participação ativa é essencial para construir uma democracia mais inclusiva.

Leis e avanços impulsionados pela presença feminina

A ampliação da presença feminina nos espaços de poder é apontada como um fator que contribui para mudanças na agenda política e na forma de enfrentar desigualdades sociais. Para a deputada federal Lídice da Mata (PSB), quando mais mulheres ocupam cargos de decisão, novas perspectivas passam a influenciar a formulação de políticas públicas.

Ao comentar o tema, a parlamentar lembra uma frase da ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, frequentemente citada em debates sobre representatividade feminina.

Lídice da Mata promove plenária estratégica em Salvador para fortalecer base eleitoral
Lídice da Mata é deputada e foi prefeita de Salvador
Divulgação

“Como diria a ex-presidente do Chile, quando as mulheres participam da política, as mulheres mudam a política e a política muda as mulheres. Quando estão em posição de poder, elas costumam olhar os problemas da sociedade também sob o ponto de vista das mulheres”, afirma Lídice.

Segundo Lídice, a presença feminina no Parlamento costuma impulsionar debates ligados à igualdade de direitos e ao enfrentamento da violência de gênero.

“O compromisso das mulheres que chegam ao Parlamento, geralmente, é buscar leis que combatam desigualdades salariais e a violência contra a mulher”, diz Lídice da Mata.

A deputada cita a Lei Maria da Penha como um exemplo de avanço impulsionado pela atuação feminina no Legislativo.

“Foi muito difícil enfrentar algo que acontece dentro de casa, na relação familiar. Ainda assim, o Brasil conseguiu produzir essa legislação, que hoje é referência no mundo”, destaca.

Para Lídice, a ampliação da participação feminina também influencia decisões em outras esferas do poder público, como no Judiciário e no Executivo, contribuindo para avanços em políticas de proteção e garantia de direitos das mulheres.

Largada desigual e barreiras partidárias

A vereadora de Salvador, Ireuda Silva (Republicanos), que preside a Comissão da Mulher na Câmara, aponta, em entrevista ao Portal M!, que o problema não é a falta de interesse das mulheres, mas uma “distorção estrutural”. Ela afirma que, embora sejam maioria nas urnas, as mulheres não disputam em igualdade de condições.

“As mulheres são maioria no eleitorado, mas não disputam em igualdade de condições. De modo geral, ainda enfrentamos barreiras dentro dos próprios partidos, dificuldade de acesso a recursos, menos espaço nas decisões estratégicas e uma cultura política que historicamente privilegia homens. Além disso, muitas mulheres acumulam responsabilidades familiares e profissionais que tornam a trajetória política ainda mais desafiadora”, explica a vereadora.

Ireuda é uma das vereadoras de Salvador
Foto: Divulgação

Para ela, o acúmulo de responsabilidades familiares e profissionais torna a trajetória ainda mais difícil. Essa dificuldade na largada também passa pelo compromisso das legendas. Ireuda avalia que as regras de financiamento e as cotas de gênero são avanços importantes, mas alerta que elas não resolvem o problema sozinhas se não houver um compromisso real dos partidos com candidaturas viáveis.

Ireuda observa que a bancada feminina tem amadurecido e está mais consciente do seu papel estratégico e as regras de financiamento e as cotas, apesar de terem sido avanços importantes, não resolvem o problema.

“Se não houver compromisso real das direções partidárias com candidaturas viáveis, competitivas e posicionadas de forma estratégica, a legislação vira apenas cumprimento formal. Precisamos de mulheres não apenas para preencher percentual, mas para liderar projetos políticos”, defende ela, que ressalta que quando mulheres ocupam espaços de decisão, as prioridades mudam.

Ireuda afirma que projetos como a ampliação da rede de proteção à mulher como o Nova Fase, o SIMM Mulher e a Guardiã Maria da Penha, todos de sua autoria, só avançaram porque houve firmeza, insistência e articulação política liderada por mulheres.

“Muitas pautas que hoje são políticas públicas consolidadas só existem porque houve uma mulher decidida a não aceitar o silêncio como resposta. Mas não posso deixar de reconhecer o apoio dos colegas homens, que entenderam a importância dessa pauta para a sociedade”, pontua Ireuda Silva.

O machismo que atravessa ideologias

A baixa representatividade não escolhe lado político. Segundo Luciana Panke, uma das mulheres mais influentes na comunicação política pela The Washington Academy of Political Arts & Sciences, o preconceito contra a mulher no poder atinge tanto a direita quanto a esquerda.

“O preconceito com as mulheres acontece no poder, não só na política, isso ocorre em qualquer ideologia, esquerda, direita, centro, porque o machismo e a misoginia ocorrem em qualquer situação onde a mulher ameaça o status quo”, afirma.

Luciana Panke é uma das especialistas mais influentes em comunicação política
Foto: Arquivo pessoal

Luciana Panke, que também é autora do livro “Campanhas Eleitorais femininas para mulheres: tendências e desafios”, reforça que o patriarcado — a ideia de que homens devem estar naturalmente no comando — ainda é o principal obstáculo no Brasil e na América Latina.

“O patriarcado é caracterizado por entender que os homens estão no poder e mandam em outros homens e mandam em outras mulheres. O entendimento de que isso é a ordem natural das coisas é o principal obstáculo, enquanto ainda acharem que ser homem é ser superior a mulher em vários aspectos, a eleição da mulher ainda vai ser difícil”.

Liderança feminina muda prioridades e amplia debate social na política

vereadora de Salvador, Aladilce Souza (PCdoB), avalia que a presença de mulheres em espaços de decisão tende a provocar mudanças concretas nas prioridades das políticas públicas. Em entrevista, ela afirma que a experiência social das mulheres, marcada pelo cuidado com a família e pela responsabilidade com o cotidiano doméstico e comunitário, acaba influenciando diretamente o olhar sobre temas considerados essenciais para a população.

“ Quando as mulheres ocupam cargo de decisão, há mudança nas prioridades das políticas públicas. A tendência é que as mulheres deem prioridade a políticas sociais, como política de saúde, de educação, de assistência social, porque as mulheres, em geral, elas estão mais relacionadas com essas questões, com o cuidado com a família, com os filhos, com todas as pessoas. Então essa é uma preocupação permanente das mulheres, de ver como sustentar, como ajudar na sobrevivência, numa vida digna das pessoas, afirma”.

Mulheres são maioria nas urnas, mas minoria no poder: 7 dados que explicam por que a política brasileira ainda é dominada por homens
Aladilce Souza é vereadora de Salvador
Foto: Divulgação

Segundo a parlamentar, a presença feminina em cargos políticos também contribui para que pautas historicamente negligenciadas ganhem mais força no debate institucional. Entre elas, estão temas ligados à saúde pública, à defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e ao enfrentamento das desigualdades de gênero.

“Acho que avançaram projetos relacionados à saúde, ao SUS, e também iniciativas voltadas para o enfrentamento ao machismo e às questões relacionadas à mulher, principalmente no combate à violência contra a mulher. Um exemplo é a própria Lei Maria da Penha, que foi relatada por uma mulher, por Jandira Feghali, lá na Câmara Federal. Quando as mulheres estão nos espaços de poder, elas trazem para esses espaços as suas pautas, aquilo que mais aflige as mulheres”, destaca.

Apesar de as mulheres representarem a maioria do eleitorado brasileiro, Aladilce Souza avalia que o avanço na ocupação de cargos políticos ainda ocorre de forma gradual. Mesmo assim, ela acredita que o cenário pode apresentar mudanças nas próximas eleições.

“Eu acho muito possível que a gente tenha um avanço da presença feminina nos espaços de poder, tanto na Câmara quanto no Senado, nesse processo eleitoral de 2026. Há uma mobilização muito grande das mulheres no Brasil, especialmente diante do avanço do feminicídio. Então acredito que teremos um crescimento na representação feminina”, afirma Aladilce.

Para que esse avanço aconteça de forma mais consistente, a vereadora defende uma mobilização mais ampla da sociedade e das próprias instituições políticas para incentivar a participação feminina.

“É preciso que a sociedade contribua para a promoção das mulheres. Isso passa pelos partidos políticos, passa também pelas instituições da sociedade civil onde as mulheres participam. É preciso ajudar, incentivar e liberar as mulheres para participar da esfera pública, para atuar nos movimentos e, assim, poder galgar espaços no parlamento. As mulheres precisam ser incentivadas, encorajadas e apoiadas para seguir adiante”, explica.

Ainda assim, a parlamentar acredita que a presença feminina fortalece a política e amplia a qualidade do debate público.

“Quando a gente enfrenta, quando tem coragem e determinação, acaba mostrando que as mulheres têm condição de estar nesses lugares. Não é porque sejamos melhores que os homens, mas porque o enfrentamento diário que as mulheres vivem — dificuldades que os homens muitas vezes não enfrentam — acaba nos tornando ainda mais preparadas. O olhar da mulher é mais amplo, mais profundo e mais assertivo”, conclui.

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