Mateus Aleluia retorna em álbum que une guitarra à ancestralidade

Quando o produtor musical paulista Ronaldo Evangelista, 40 anos, começou a conceber o novo álbum de Mateus Aleluia, Olorum (Selo Sesc), ele pensou em propor algo diferente dos discos anteriores do músico baiano que está prestes a completar 77 anos. “Os discos anteriores dele são muito lindos, mas tem um som bem acústico, muito tranquilo, leve… Então, botamos uma guitarra e uma bateria, que, acho, ele nunca usou em álbuns anteriores, nem na época dos Tincoãs [grupo que Mateus integrou]”.

O disco pode ser ouvido a partir desta sexta-feira (24) exclusivamente no site sesc.digital, gratuitamente. A partir da próxima quarta-feira, estará nas diversas plataformas digitais.

Mas, apesar do toque de contemporaneidade, a ancestralidade africana, tão marcante na carreira de Seu Mateus – como ele é chamado, em tom de reverência – continua presente. Incluindo a guitarra ‘choradinha’, que é uma característica de países da África como Congo e Mali.

Essa ancestralidade está no sangue do ex-tincoã. Como ele mesmo costuma dizer, a presença da África na Bahia é muito marcante e, segundo ele, há, por exemplo, nos nossos terreiros de candomblé, coisas que já não existem mais sequer na própria África. “Mateus diz que as coisas se miscigenaram muito com o tempo. Quando perguntam a ele, por exemplo, o significado da letra de uma música, ele diz: ‘as coisas não são tão simples assim’. Afinal, vivemos num caldeirão”, diz Ronaldo.

Além da guitarra e da bateria, há ainda uma outra fundamental mudança em relação aos dois álbuns anteriores de Mateus: pela primeira vez, ele compõe sozinho todas as canções de um trabalho solo seu. Somente a faixa Kyriê! Epa Babá tem, em parte dela, uma adaptação de uma música sacra católica. Todo o resto é criação de Seu Mateus, que, aos 76 anos, não se cansa de produzir. “É o primeiro disco 100% autoral dele, já que, nos outros álbuns, ele tinha muita composição com Dadinho, que também foi dos Tincoãs”, observa Ronaldo.

Olorum começou a ser gravado cerca de dois anos atrás, quando Mateus viajou até a Serra da Cantareira, em São Paulo, para ir até um estúdio encontrar Ronaldo. Ali, ouviram muita música, conversaram e fizeram a pré-produção do disco. Depois, o produtor montou a banda com músicos paulistas e passou a gravar as bases instrumentais, que eram enviadas para a aprovação de Seu Mateus.

João Donato
O novo trabalho foi capaz de promover um reencontro com tom nostálgico entre Mateus e João Donato, que toca piano elétrico em duas faixas, Amarelou e Bem-Te-Vi. Donato, junto com Oberdan Magalhães – líder da banda Black Rio – assinou os arranjos dos discos O Africanto dos Tincoãs (1975) e Os Tincoãs (1977).

A ideia de convidar o pianista nascido no Acre partiu de Ronaldo Evangelista. “Acho Donato um dos melhores músicos do planeta. Tive o prazer de produzir um show dele na Califórnia, há dois anos e Mateus abriu aquele show. Foi o reencontro deles, que não se viam havia 40 anos”, revela o produtor.

Mal terminou de gravar seu terceiro álbum, Mateus já pensava no próximo, em que vai registrar cantos de orixás, captados na África. Não fosse a pandemia de covid, Seu Mateus provavelmente já estaria no continente africano, para gravar os cantos dos nkises (entidades do povo bantu) e voduns (divindades ancestrais de Benim).

Além disso, estreia em breve um documentário sobre a história do músico, Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, com direção de Tenille Bezerra, que passou seis anos produzindo o longa.

E fique atento: neste domingo, às 19h, Mateus Aleluia vai realizar na internet um show de lançamento de Olorum, que integra a série Música #EmCasaComSesc, transmitido pelo Instagram (@sescaovivo) e o YouTube (@sescsp).

Correio

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