Caso Marielle: Testemunhas afirmam que PMs mandaram sair do local

Duas testemunhas afirmam ter presenciado os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. As duas pessoas contaram detalhes do crime para o jornal carioca O Globo. Segundo a publicação de hoje, as duas foram ouvidas separadamente e deram relatos idênticos.

A reportagem revela novos detalhes sobre a execução. As informações foram dadas por duas testemunhas que não foram ouvidas pela polícia. Ambas teriam afirmado que policiais militares mandaram testemunhas sair do local do crime.

Segundo as testemunhas, o carro em que os assassinos estavam imprensou o veículo conduzido por Anderson no qual estavam Marielle e uma assessora parlamentar e que quase subiu na calçada. Ambas disseram, também, que só viram um veículo no momento em que foram feitos os disparos. As imagens de câmeras de vigilância sugeriam que dois veículos haviam perseguido o carro em que a vereadora estava.

As testemunhas disseram também que viram um homem negro, que estava sentado no banco de trás do carro dos criminosos, colocando o braço para fora do veículo com uma arma de cano alongado e que o armamento parecia ter um silenciador.

Prostesto na Cinelândia, no centro do Rio, por conta do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) (foto: AFP)

As duas pessoas ouvidas pelo jornal afirmaram ainda que o carro usado pelos criminosos deu uma guinada e fugiu, cantando pneus, pela Rua Joaquim Palhares.

Até então, a suspeita era de que a fuga teria ocorrido pela Rua João Paulo Primeiro. Ainda de acordo com o jornal, as testemunhas permaneceram no local até a chegada da polícia, mas saíram de lá sem serem ouvidas por orientação de policiais militares.

“Cheguei a esperar alguns minutos no local, mas os PMs mandaram as pessoas irem para casa”, disse uma das testemunhas, que conta que ficou com medo. Desde os assassinatos de Marielle e Anderson Gomes, a investigação está sob sigilo.

Diante da reportagem do Jornal O Globo, a emissora de TV fechada GloboNews questionou à Polícia Civil sobre a razão pela qual as duas testemunhas não foram ouvidas. A corporação não se pronunciou.

Indícios de ligação com atuação política

Na última quinta-feira (29), o secretário de Segurança do Rio, general Richard Nunes, disse que o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes tem indícios de ligação com a atuação política da parlamentar. Ela era presidente da comissão que acompanha a intervenção no Rio de Janeiro e poucos dias antes de sua morte denunciou o uso da força pela Polícia Militar na Favela de Acari, na zona norte da cidade.

Marielle era presidente da Comissão Representativa da Câmara de Vereadores do Rio, criada com o objetivo de acompanhar a intervenção federal na segurança pública do estado

Nunes deu a declaração durante programa de entrevista ao vivo do canal Globo News. Ele descartou algumas linhas de investigação, como problemas pessoais.

“Não há dúvida de que a atuação política dela, o que ela representa politicamente não só no momento, mas até projeção de futuro, que ela poderia representar, indica que a gente tem que ter um olhar mais acurado nessa direção. Isso é inegável. Outros tipos de ligações, de área pessoal, estamos descartando. A questão de relacionamento com assessores, de demissões, não foi nada disso. Não houve demissões, houve remanejamento interno. Soubemos disso por meio dos depoimentos”, disse o general. Nunes informou que o inquérito já tem 300 páginas e que foram ouvidas mais de 30 pessoas.

O secretário informou que a investigação está cruzando dados dos números telefônicos celulares na área da Lapa, onde Marielle foi perseguida pelos criminosos, com os números captados por outras antenas de celular ao longo do trajeto, até o local da execução, no bairro do Estácio: “É um trabalho demorado, de ter que rastrear todas aquelas linhas que estavam naquela área. É um trabalho de força-tarefa, mas está caminhando bem”.

De acordo com ele, já se sabe que mais de indíviduo participou do crime. E afirmou estar “otimista” e que a polícia está chegando cada vez mais perto. O secretário comentou sobre a velocidade e o sigilo das investigações, necessários, segundo ele, para que as provas produzidas não sejam posteriormente anuladas.

“Estamos fazendo o correto e com a celeridade que caracteriza a importância atribuída à investigação, porém sem precipitação. Precipitar-se é extremamente perigoso, porque depois as provas produzidas podem ser contestadas. E mesmo que a gente chegue à identificação dos culpados, isso pode não redundar na condenação que esperamos”, disse Nunes.

‘sangue nas mãos’

Monica Tereza Benício, viúva da socióloga Marielle Franco se pronunciou no fim do mês passado durante o evento de reabertura da Biblioteca Parque de Manguinhos, que foi rebatizada com o nome da vereadora. Na ocasião ela declarou que o atual governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, terá sangue nas mãos até que o caso seja solucionado. “Haverá sangue nas mãos do governador até que a Polícia Civil resolva a morte da vereadora”, discursou.

Monica Tereza Benício, viúva da socióloga Marielle Franco (Foto: TV Globo/Reprodução)

Ela ainda aproveitou a ocasião para criticar a atitude do governo em deixar a biblioteca fechada por cerca de um ano. “O estado não faz mais do que sua obrigação reabrir (a Biblioteca Parque) porque é dever dele dar cultura para os povos favelados”, declarou Monica.

Segundo informações do jornal O Globo, o discurso de Pezão foi recebido com vaias. “Retorno triste por esses dias que ficaram fechados”, disse o governador, logo corrigido pelas pessoas: “Foi mais de um ano. Não foram dias, não”, gritou alguém. Os pais de Marielle, Marinete da Silva e Antônio Francisco da Silva, participaram da solenidade que homenageou a filha. Marinete discursou.

“Tenho muita indignação. Foi um ato covarde! (Marielle) começou na política como filha, como mulher, como mãe e com tudo o que ela pregava e acreditava em seus projetos sociais. É uma tristeza profunda! Não vou nem falar da Marielle como política, vou falar como filha. Quando a Marielle entrou na política diretamente, antes de trabalhar com o Marcelo (Freixo, deputado estadual pelo PSOL), eu temia muito, não por ela, mas mais pelo Marcelo. Eu não queria. Mas ela era teimosa, objetiva, era forte. Ela não ia mudar em nada. Ela se envolveu em muitos projetos, mas eu nunca imaginei que ela fosse chegar tão longe. Era uma mulher vibrante, amorosa, era uma mãe boa e filha também. E a covardia que fizeram com a minha filha não tem tamanho! É inadmissível por que Marielle não tinha motivo para isso. Ela sempre se envolveu em projetos sociais variados. Desde criança. Não tenho nem o que falar. Só agradecer”, destacou.

Em Salvador, missa na Igreja do Rosário dos Pretos homenageou Marielle

Elas tinham roupas, trajetórias e atitudes parecidas. Compartilhavam o mesmo discurso de resistência. E, naquele momento, dividiam também a mesma dor: a perda de Marielle Franco, executada com quatro tiros na cabeça, no Rio de Janeiro. As mulheres que estavam no ato  ‘Marielle Vive Salvador’ marcharam pelas ruas do Centro Histórico de Salvador pedindo justiça.  A mobilização inter-religiosa  ocorreu ontem em mais 14 estados do Brasil.

“Quando uma Marielle é assassinada, todas nós, mulheres negras, morremos também. Marielle nos defendia. Quem achou que nós íamos ficar caladas, se enganou”,  afirmou a  coordenadora da Marcha das Vadias Nacional e da América Latina, Sandra Muñoz. Durante o ato, uma missa  foi celebrada na  Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.

A relações pública Renata Dias, 37 anos, estava acompanhada da amiga, a pedagoga Jandira Mawusi, 40 anos. Ela diz que foi até o ato porque se sentia representada pela vereadora. “A gente veio de lutas e de conquistas. Temos as mesmas problematizações enquanto mulheres e negras. Acho que é isso que faz com que Marielle  seja muitas. Nós,  que estamos aqui,  vemos nela a nossa história de vida”.

Assista ao vídeo:

Repercussão na ONU

Especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) ligados a questões de direitos humanos e de gênero divulgaram, também no fim de março, um comunicado no qual consideram “profundamente alarmante” o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), no dia 14 de março, e do motorista Anderson Gomes. A vereadora foi atingida por quatro tiros na cabeça e o motorista por três tiros nas costas. Uma assessora que estava no carro sofreu ferimentos leves.

Os especialistas integram os Procedimentos Especiais do Conselho dos Direitos Humanos, o maior órgão de especialistas independentes no Sistema de Direitos Humanos da ONU, como são conhecidos os mecanismos independentes de monitoramento de direitos humanos do Conselho.

“O assassinato de Marielle é alarmante, já que ele tem o objetivo de intimidar todos aqueles que lutam por direitos humanos e pelo Estado de direito no Brasil”, apontaram no comunicado conjunto.

Os especialistas da ONU pedem investigação rápida e imparcial dos assassinatos, alertando que a execução de Marielle é um sintoma assustador dos atuais níveis de violência no país. “Marielle foi uma extraordinária defensora de direitos humanos. Ela defendeu os direitos dos negros, das populações LGBTI, das mulheres e dos jovens das favelas mais pobres do Rio. Marielle será lembrada como um símbolo de resistência para comunidades marginalizadas historicamente no Brasil”, diz o comunicado.

No comunicado eles lembram que Marielle criticou o uso da força militar no Rio de Janeiro e a intervenção federal na segurança pública do estado. Pedem ainda às autoridades brasileiras mais proteção de defensores de direitos humanos do país. “Pedimos às autoridades brasileiras que usem este momento trágico para revisar suas escolhas em promoção de segurança pública e, em particular, para intensificar substancialmente a proteção de defensores de direitos humanos no país”.

Os especialistas da ONU lembram que como vereadora, Marielle integrava a comissão que acompanha a intervenção no Rio de Janeiro e que poucos dias antes de sua morte denunciou o uso da força pela Polícia Militar na Favela de Acari, na zona norte da cidade.

Eles destacaram ainda que, neste fim de semana, oito pessoas morreram durante uma operação policial na Rocinha, na zona sul do Rio, e ressaltaram que a segurança pública nunca deve ser feita às custas de direitos humanos. “Respostas repressivas que miram e marginalizam pessoas pobres e negras são inaceitáveis e contraprodutivas”.

O comunicado é assinado pelas relatoras especial sobre Violência Contra Mulher, Suas Causas e Consequências, Dubravka Šimonovi ; especial sobre Execuções Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias, Agnes Callamard; especial sobre Formas Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância, E. Tendayi Achiume; pelo presidente do Grupo de Trabalho dos Especialistas em Pessoas de Origem Africana, Michal Balcerzak; pelo especialista independente em Proteção contra Violência e Discriminação Baseada em Orientação Sexual e Identidade de Gênero, Victor Madrigal-Borloz; pela presidente do Grupo de Trabalho sobre Temas Relacionados à Discriminação, Legal ou Prática, Contra a Mulher, Alda Facio.

Segundo a ONU, os titulares de mandato dos Procedimentos Especiais “são especialistas independentes em direitos humanos nomeados pelo Conselho para abordar situações específicas de países ou questões temáticas em todas as partes do mundo. Os especialistas não são funcionários da ONU e são independentes de qualquer governo ou organização. Eles servem em sua capacidade individual e não recebem um salário por seu trabalho”.

Marielle e Anderson foram mortos, na noite do dia 14, na Rua João Paulo I, no Estácio. Dois carros participaram do crime e o veículo onde estavam as vítimas foi atingido por 13 tiros.

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