Cachoeira: Após denúncias novela do Hotel Colombo vira manchete estadual

Após diversas denúncias publicadas em nosso site onde alertava que as ruínas do Hotel Colombo poderiam virar uma grande tragédia e os verdadeiros responsáveis fogem das suas obrigações, dessa vez virou manchete do maior jornal de circulação da Bahia. O Correio fez uma belíssima matéria sobre o jogo de empurra que envolve um morador da cidade (suposto proprietário), o Iphan por ser tombado e a prefeitura de Cachoeira que desapropriou o imóvel e depois voltou atrás. Nem o poder executivo, legislativo municipal e o judiciário local adotaram ações efetivas para solucionar o caso. Até uma deputada estadual, com mais de 5 mil votos na cidade, veio a público prometendo empenho, mas nada fez.  Confira a matéria:

Como qualquer boa história, a do Hotel Colombo é escrita com a tinta do improvável. Um espanhol de Pontevedra chega a Cachoeira, no Recôncavo baiano, nos anos 30. O mesmo estrangeiro abre um hotel. O negócio, à margem do Rio Paraguaçu, prospera. É como um filho para Aurélio. Mas, em 1972, o filho perde o pai. E o hotel, sem a força de sua sustentação, definha até cair, agora, no Verão de 2019, no dia 19 de janeiro. Então, começa a briga para decidir quem responde pelo antigo filho pródigo. Como qualquer boa história, a do Colombo aguarda um final feliz.

As 165 páginas de um processo revelam o que Aurélio Bouzas jamais esperou para o futuro da sua grande conquista em solo brasileiro, seu refúgio contra a Guerra Civil Espanhola. O espanhol também abriu uma sede do hotel em Nazaré das Farinhas, onde hoje funciona uma loja, num sobrado amarelo restaurado. O Colombo é apenas uma das 670 edificações tombadas como um só organismo urbano na cidade. E apenas um dos que sofrem com o abandono e a falta de restauração na cidade.

A disputa impressa nas laudas é iniciada em 2014, quando a Prefeitura de Cachoeira desapropria o agora proprietário, Raimundo Coelho, para uso público do sobrado. “Se ele não estivesse morto, morreria ao ver o que aconteceu”, diz Raimunda Bouzas, viúva do mais famoso dos seis filhos de Aurélio, Heraldo Bouzas, um dos fundadores da banda Os Tincoãs.
A intenção era usar o prédio de 1,4 mil metros para instalação do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). No dia 30 de maio de 2014, o prédio vira propriedade pública. O valor da reforma, no entanto, seria maior do que o esperado. Na verdade, segundo o reitor Silvio Soglia, por meio de assessoria, a proposta do campus ficou restrita à especulação. Depois de pagar R$ 58 mil, a Prefeitura desiste da ação, em novembro de 2016. E, em maio do ano passado, a tutela legal do sobrado volta para Raimundo, conhecido como Raimundinho.

O advogado por formação e ex-funcionário público é nascido e criado em Cachoeira. Na boca dos conterrâneos, é um homem tranquilo, mas determinado. Desde os anos 90, coleciona compra de casarões. O Colombo entra para o topo de suas preciosas aquisições em 1992, quando consegue comprá-lo da mão de Manoel Carlito. Na mira, não estava o hotel, mas a possibilidade de especulação imobiliária. Conta-se, meio de brincadeira, meio de verdade, que Raimundo faz parte de um problema social de Cachoeira. O problema de herança.
O Colombo ficou entregue à própria sorte. Com Aurélio, conhecera a glória. Com Manoel Carlito, o Carlito Muquibão, o início da decadência. Já faltavam reformas ao casarão, construído no início do século 19 e com dois andares anexados nas décadas de 50 e 60. A enchente do Rio Paraguaçu, em 1989, somou à decisão de Muquibão. Na mesma rua de onde se avista a estrutura caída, Damião Coqueiro, 58, relembra:
eu Damião fez de tudo em quase 15 anos de Colombo: trabalhou no restaurante, morou com a família e abriu um bar nas dependências do fundo. “Hoje, evito até passar ali pela frente, minha filha…Dói”, conta. Ninguém da família foi encontrado para comentar os anos de Muquibão à frente do Colombo.

Com Raimundinho, as portas do Colombo são definitivamente fechadas até caírem. Nas mãos da Prefeitura, igual ocorre. Todos queriam o Colombo. Ninguém o quer mais.

Na semana seguinte à queda, deu-se a busca por Raimundinho, também dono da Pousada Pai Thomaz, a poucos metros do destroçado Colombo, na Praça 25 de Março. “Procuraram logo… ninguém achou”, conta Valdir Soledade, morador de Cachoeira. A notificação do Instituto do Patrimônio História e Artístico (Iphan) – o sobrado do Colombo faz parte do conjunto tombado na cidade, desde 1943 – e da Prefeitura Municipal chegou ao apartamento de Raimundinho no Campo Grande, em Salvador, na semana seguinte. A reportagem encontrou o empresário, que preferiu não comentar o assunto, depois de ter reafirmado não ser mais o proprietário legal do imóvel. E quem é?

No curso do processo, Raimundinho estava inconformado com o valor pago pelo sobrado, avaliado depois pela Justiça em R$ 393 mil.
Depois da decisão, Raimundinho pediu recurso. A defesa alega que o pedido de revisão de valores, por exemplo, não foi levado em consideração. É que o empresário havia solicitado, ainda em 2016, R$ 695 mil referente a aluguel do sobrado, juros e a impossibilidade de utilização do imóvel. A advogada responsável foi procurada, mas não atendeu aos telefonemas. Assessor jurídico de Cachoeira, Igo Vinicius responde: “A revogação e a desistência não dependem da vontade do proprietário. É o entendimento do município”.

No entendimento da lei, há brechas. “O valor foi depositado, embora depois o réu [Raimundo] tenha pedido mais. Talvez a defesa tenha encontrado um caminho”, comenta o outro advogado. A Prefeitura enviará uma representação ao Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA). Já o Iphan notificará o proprietário e o município “reiterando o pedido de adoção das medidas emergenciais”. O outro auto de infração foi enviado a Raimundo, no dia 21 de janeiro. Segundo o Iphan, ele tem 15 dias para se manifestar.

Mas com o Colombo, mesmo mais de um mês depois de sua destruição parcial, nada foi feito. Isolado apenas por bandeirolas azuis, o Hotel tem a história com personagens como Gilberto Gil e Cauby Peixoto, e os próprios Tincoãs, abafada pelo peso das pedras.
Gilberto Gil, ainda muito menino, costumava acompanhar o pai médico, José Gil Moreira, em viagens ao interior. Nesse período, que durou até 1967, a linha flúvio-marítima pelo Rio Paraguaçu era a principal ligação de Salvador com o sertão. Quando não havia embarcação de volta à capital, dormiam, pai e filho, no Hotel Colombo.

Dos jantares ali, o bife acebolado do restaurante tornou-se o favorito do músico. “Quando ele ainda era ministro [2003-2008], esteve aqui e contou isso. Estava triste ao ver o hotel do jeito que estava”, recorda Fábio Coqueiro, 35, filho de Damião, vereador e ex-secretário de Meio Ambiente e Obras Públicos.
É, ainda, a história com artistas como Ângela Maria e Cauby. Sobre Cauby, um fato ocorrido na década de 50 permanece na memória dos mais velhos moradores da terra. O cantor tentava sair do hotel rumo ao Cine Teatro Cachoeirano, onde faria um show. Os fãs impediam, reclamavam autógrafos e abraços. A única solução é sair, guiado pela multidão, cantando a seresta Conceição. “E aí grito, desmaio. Era Cauby Peixoto! O Hotel tem essa mística na cidade”, recorda Cacau.

Nas dependências do hotel, com 47 quartos, aconteceram os primeiros ensaios d’Os Tincoãs, criado em 1962 por Heraldo, primogênito de Aurélio e Cleonice, Matheus Aleluia e Dadinho. “Era um ponto de passagem obrigatória, mesmo para quem morava lá”, lembra Matheus, em breve conversa por telefone. Na lembrança de Raimunda, Heraldo, saído do grupo em 1975, por desentendimentos, não queria que o hotel fosse vendido. “Rai ai, vender o hotel… não pode”, costumava reclamar o músico, que faleceu dois anos depois, vítima de um infarto.

No dia 17 de janeiro, uma zoada vinda do Colombo já tinha sido ouvida. Não houve nenhuma fiscalização do Iphan para averiguar a situação, conforme apurou a reportagem, diferentemente do divulgado pelo órgão. Na verdade, apenas aconteceu uma visita à área externa, insuficiente para comprovar qualquer dano. Antônio Jorge Oliveira, 48, um dos primeiros a chegar ao local, recorda:

A causa da queda é associada, segundo relatório do Iphan a que a reportagem teve acesso, a falta de manutenção. No dia 24 de janeiro, mostra o mesmo documento, o engenheiro recomendou a interdição na área, seguida de demolição de um pedaço da laje. O risco de uma nova queda, caso contrário, é iminente, acrescenta. A reportagem foi ao casarão onde funciona um escritório técnico do Iphan em busca de respostas. Saiu de lá sem nenhuma.

A questão é justamente saber quem responderá pelo que, há anos, era esperado pelos cachoeiranos: a queda do Colombo. A Prefeitura, por exemplo, não auxiliou no isolamento do perímetro. “A responsabilidade é de Rele [Raimundinho]. Os escombros não podem ser retirados porque corre risco de deslizar tudo”, defende-se o secretário de Meio Ambiente e Obras Públicas do município, Edgar Moura.

Abandono
Ao lado do que restou do Colombo, estão três outros sobrados. Num deles, sob o teto vacilante, funciona uma oficina. Fazem parte, como toda a Rua Sete de Setembro onde estão localizados, do conjunto tombado pelo Iphan desde 1971. É considerado um parque barroco ao ar livre. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Obras Públicas, estão “condenados” pela Prefeitura junto a outro imóvel na Rua JJ Seabra. No Iphan, não há registros de condenação de nenhum imóvel.

Nas ruas da cidade onde nasceram Teixeira de Freitas, Ernesto Simões Filhos e Ana Nery, também é visível a falta de preservação do patrimônio. O casal Raimundo e Letícia, moradores de um casarão na Rua 13 de Maio, convive com medo de o sobrado vizinho desmoronar.
O Iphan esclarece, em nota: “O tombamento […] não tira de seu proprietário, seja ele público ou privado, a responsabilidade pela manutenção, gestão e conservação do mesmo”, ressalta o órgão, em nota. No casarão azul à frente de onde Raimundo mora desde a infância, outra lembrança trágica: um incêndio, em 2016, matou duas crianças de 3 e 4 anos. Quase ao lado, um casarão torto é o novo motivo da preocupação.

Há dois anos, o último morador do imóvel faleceu. Uma parte do telhado e da parede já havia caído, sem que nada fosse feito. “Entrei na justiça para notificar os herdeiros do imóvel. Eles alegaram falta de condições para fazer essa melhoria”, conta um dos vizinhos, Claudio de Carvalho, 49. Por isso, decidiu sair por conta própria, com esposa e duas filhas, para uma casa alugada, afastada dali.

Mesmo em 1975, quando participou de um inventário do patrimônio baiano, o arquiteto Paulo Ormindo Azevedo catalogava problemas que se tornariam insustentáveis no futuro. Com a rede rodoviária que passou a ligar o sertão diretamente a Salvador, as mercadorias deixaram de ser transportadas por ali, pelo rio. A economia enfraqueceu, o êxodo foi inevitável

Da década de 70 até 2010, diz o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população com mais de 45 anos passou a representar 23% dos 32 mil moradores – em 70, era 16%. O Iphan, por meio do Projeto Monumenta, realizou intervenções em alguns dos imóveis para, também, incentivar o uso social. Não foi o suficiente para estancar séculos de degradação.

A casa de Raimunda, viúva de Heraldo, por exemplo, está ameaçada pelo casarão vizinho, na Rua 13 de Maio. Já o proprietário do sobrado do Colombo, Raimundo sequer aceitou as condições do financiamento para reformar o imóvel. O mais recente capítulo do Colombo, ao que parece, poderia ter sido diferente. O próximo, como todo resto, é imprevisível. Como foi Cauby Peixoto, no meio da multidão.

Correio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *