Vida longa: Salvador tem a maior expectativa de vida entre as capitais do Nordeste

Aos 92 anos, Gabriel Saraiva, radialista aposentado, flutua pelo shopping. Sorri, brinca com uma bolinha de futebol de papel e cumprimenta pessoas muito mais jovens do que ele. “O senhor parece que bebe formol!”, graceja um dos conhecidos que o encontra pelo caminho – outros, que acenam alegremente quando avistam a sua figura, ele jura que nunca viu na vida. “Eu tiro de duas a três fotografias por dia. Todo mundo me conhece”. Entre as dezenas de fotos que guarda no bolso estão algumas em que aparece ao lado de funcionários das lojas, netos, amigos, uma paquera 40 anos mais nova e passantes aleatórios. “Pedem para tirar foto, eu tiro e guardo, mas nem sei quem é”.

São vários os motivos que fazem da curiosa imagem de Saraiva tão conhecida: os cabelos brancos mais longos do que o habitual para os senhores de mais de 90 anos, o paletó preto sempre aprumado e a gravata estampada com escudos de times de futebol. Ao longo da vida, ganhou e encomendou mais de 60 peças e garante que, enquanto puder, vai alimentar a coleção. Há 15 anos, desde que ficou viúvo, passou a gravar a foto da esposa nas novas gravatas. “Para ficar sempre perto”.

De segunda a sábado, sem falta, o aposentado passa as manhãs no shopping. “Domingo só abre pela tarde e não tem tanto movimento”, reclama. Lá pelas 9h30 vai de carona com o filho e, impreterivelmente, no começo da tarde, às 13h30, volta para casa de Uber. “Mas não sou eu quem pede pelo aplicativo”, ri, ao notar a surpresa que causa essa informação. “Meu filho pede, eu vou lá para a porta e espero”.

O gosto por andar pelo centro comercial, observar vitrines e ver gente é antigo. Há décadas, tantas que nem sabe dizer quantas, o radialista tem alguns shoppings da cidade como uma segunda casa. O que mais o atrai nos passeios, além da rotatividade de amigos que faz todos os dias, é o respeito, acolhimento e até a admiração de quem o encontra – reconhecimento substancial na vida de quem já viveu tanto.

O presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – seccional Bahia (SBGG), o geriatra Leonardo Oliva, diz que mesmo com um Estatuto do Idoso tão consistente, ainda há muito o que se tirar do papel. “Temos falado em educação voltada ao envelhecimento. São comuns os relatos de desrespeito, por exemplo, quando um idoso anda nas ruas. As pessoas reclamam, passam na frente. Isso tudo vai voltar para o jovem que reclama no futuro, quando ficar mais velho. Às vezes falta essa noção de que o tempo chega para todos”.

A velha Salvador

Em comparação a outras regiões do Brasil, o Norte e o Nordeste são considerados jovens. Mas, de acordo com informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a capital baiana tem, desde o início dos anos 2000, passado por um processo progressivo de envelhecimento. “Em 1980, menos de 5% da população de Salvador era de idosos (4,7%) e a cidade ocupava a 16ª posição entre as capitais nesse indicador de participação”, explica Mariana Viveiros, supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia.

Em 1980, menos de 5% da população de Salvador era de idosos (4,7%) e a cidade ocupava a 16ª posição entre as capitais nesse indicador de participação”, Mariana Viveiros, supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia

Salvador só mudou de posição em 2017, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). Com 15,1% de idosos, a cidade chegou ao 9º lugar no ranking das capitais mais envelhecidas do Brasil, superando Curitiba, Goiânia, Campo Grande e Cuiabá. No Nordeste, o município ainda perde em número para Recife (16,5%) e João Pessoa (15,2%), mas ganha em expectativa de vida: o baiano vive, em média, 72 anos, soma maior do que em todos os outros estados da região.

As principais causas desse envelhecimento tardio, segundo o IBGE, passam pelas taxas de natalidade – se nasce mais gente, há mais jovens nas estatísticas – e pela estrutura urbana das cidades, especialmente no que diz respeito a saúde pública, saneamento básico e desigualdades sociais. “Existe uma relação forte entre desenvolvimento socioeconômico e envelhecimento populacional. Os países mais ricos e desenvolvidos costumam ter populações mais envelhecidas”, conclui a supervisora. Mesmo com uma população majoritariamente jovem, o Censo mais recente, apurado em 2010, indica que o estado é o que mais abriga centenários no país: na época, eram 3.578 pessoas.

Aos 103 anos de idade, Rosilda dos Santos, conhecida como dona Rosa, trabalhou por 87, dos 7 aos 94. Parou apenas porque a última patroa faleceu. As limitações causadas pela artrose nas pernas prolongam seus movimentos mais caseiros, como caminhar entre um cômodo e outro, mas a voz pode ser ouvida de longe. Sem qualquer acanhamento, a jequieense conta o que passou para chegar até aqui: “Fui dada para trabalhar com uma família ainda criança e nunca mais parei. Vim parar em Salvador assim, uma família me trouxe”.

Rosilda dos Santos começou a trabalhar cedo, aos 7 anos, e só se aposentou aos 94
Rosilda dos Santos começou a trabalhar cedo, aos 7 anos, e só se aposentou aos 94

Faz questão de dizer que só trabalhou até essa idade porque quis. Como vive com o filho, garante, não foi por necessidades financeiras. Diferentemente dos tempos da infância, quando sair da casa da mãe e se tornar empregada doméstica não foi uma escolha, continuar na profissão até os 94 foi, para ela, um escape ao tédio de todo dia. Gostava da companhia da mulher – também idosa – para quem trabalhava e conta que até sente falta do trajeto que fazia da casa ao trabalho. “Aqui em casa, a minha diversão é arrumar. Eu gosto. Só não me peça para fazer comida”.

Apressada para terminar a conversa,  conta que, depois que deixou de trabalhar, basicamente parou de sair de casa: “Não sei nada que acontece lá fora”. As incontáveis  escadas da comunidade do Solar do Unhão, onde mora há mais de 50 anos, são em parte responsáveis pela reclusão. Até  os poucos degraus para chegar ao segundo andar da casa onde vive com o filho podem ser perigosos. “Por causa das dores nas pernas, não é bom que ela suba e desça sozinha. Mas se a gente der mole, quando percebe ela já está lá em cima”, diz Luís César, 50, caçula de dona Rosa.

Ainda que seja a cidade mais velha do Brasil, Salvador, estruturalmente, acolhe melhor os mais moços. “O nosso país ainda é difícil para se envelhecer. Na medida em que o tempo passa, viver de forma digna vai se tornando difícil. Além de ter muitas ladeiras, Salvador teve um crescimento urbanístico historicamente desordenado, há muitos passeios irregulares, construções ocupando calçadas, além de dificuldades sociais. Envelhecer é um privilégio que vem cheio de desafios”, enumera Leonardo Oliva, da SBGG.

Esses desafios, destaca o geriatra, são ainda maiores para as classes mais baixas. “Se a família não tiver condições de cuidar e acolher o idoso, custa muito caro pagar um cuidador 24 horas. O custo mensal beira R$ 5 mil, somando o salário de três profissionais trabalhando oito horas (cerca de R$ 1.500 para cada) e os encargos trabalhistas”.

Os superidosos

A Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza (Semps) promove ações voltadas para esse público por meio do Conselho Municipal do Idoso e do Fundo Municipal da Pessoa Idosa. O papel das iniciativas é, além de garantir que os cidadãos da terceira idade tenham acesso a direitos básicos, como tirar a documentação pessoal, acolhê-los em casos de necessidade. Atualmente, a Semps administra o Abrigo D. Pedro II, com capacidade para abrigar 60 idosos, além de  apoiar financeiramente as Obras Sociais Irmã Dulce, o Abrigo São Francisco de Assis e o Abrigo Santa Clara. O governo do estado tem iniciativa parecida, o Conselho Estadual do Idoso.

Para Ana Amélia Camarano, técnica de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), especializada em terceira idade, o conceito de idoso envelheceu. “O Estatuto do Idoso o define como alguém com mais de 60 anos. Essa definição foi criada em 1994 e, de lá para cá, a expectativa de vida do Brasil aumentou nove anos.  Quem tem 70 anos hoje é como quem tinha 50 duas décadas atrás. É hora de atualizar essa ideia”.

Mesmo que, a partir dos 60, uma pessoa já seja considerada idosa, as políticas sociais têm cortes etários diferentes. “Meia-entrada é para quem tem 60 anos; estacionamento, a partir de 65; assento reservado no transporte público, 60; e a entrada gratuita, 65. A primeira coisa a se fazer é igualar esses benefícios”, considera Ana Amélia.

Em julho de 2017, o Diário Oficial da União publicou uma lei que altera o Estatuto do Idoso, dando prioridade àqueles acima de 80 anos: “Os superidosos”, como define Ana Amélia. A Lei 13.466 estabelece que “em todo os atendimentos de saúde, os maiores de 80 anos terão preferência especial sobre os demais idosos, exceto em caso de emergência”. Para a pesquisadora, a convenção vem em boa hora: “São pessoas que precisam de mais rapidez nos atendimentos. Mas, agora, temos duas categorias de idoso. É tanta bagunça que me pergunto: o que significa idoso?”.

Mesmo com a evolução do estatuto, para a técnica do Ipea, o Brasil é um país culturalmente pouco receptivo à terceira idade. “A juventude não é mais uma época da vida, e sim uma meta a ser alcançada. Tenta-se negar o envelhecer de todas as formas, mas o passar do tempo é inegável. Só nega a velhice quem morre cedo”, brinca. No mercado de trabalho, a má vontade em empregar pessoas acima de 60 anos ainda se faz presente – na Bahia, 19,7% dos idosos têm alguma ocupação. “O preconceito do empregador vem da dificuldade que essas pessoas têm de acompanhar as transformações tecnológicas. É preciso investir em programas de capacitação”.

Volta às aulas

Na volta das férias da Universidade Aberta à Terceira Idade (Uati), projeto da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), o depoimento de uma aluna que passou um longo período longe das aulas abriu a Oficina de Dança de Salão. Uma roda se formou e, em silêncio, todos a ouviram narrar o assalto seguido de espancamento que a levou a passar semanas numa Unidade de Terapia Intensiva. No fim, ela foi recebida de volta com abraços e muitos aplausos.

“Estar aqui é, para eles, como uma terapia”, diz Sônia Bamberg, coordenadora da Uati. Para se inscrever, basta ter mais de 60 anos, levar documentos pessoais e um atestado médico. A taxa de matrícula, assim como a mensalidade, é de R$ 25 – hoje, a universidade oferece 400 bolsas de estudo. “Em Salvador, temos cerca de 800 alunos e as vagas acabam muito rápido”, conta a coordenadora. Somando esse número ao dos idosos matriculados nos campi da Uneb espalhados pelo interior do estado, 3.500 pessoas, em média, frequentam a Uati.

A universidade oferta mais de 40 oficinas, como dança de salão, informática, cursos de inglês, espanhol e francês, psicologia do envelhecimento, yoga e identidade e memória. Para os alunos, o período de férias no fim do ano, conta Sônia,  é o mais triste. “O que acontece é que eles criam uma rede de amizade, uma rotina e, quando isso se quebra, mesmo que temporariamente, é um baque”.

Nos últimos anos, a coordenação da Uati tem constatado um dado alarmante: são nos tempos de recesso, de dezembro a fevereiro, que ocorrem mais mortes. “É algo que nos deixa muito preocupados. Eles ficam mais solitários, deprimidos, perdem aquele vigor que vemos aqui durante as aulas”.

A Universidade Aberta à Terceira Idade, da Uneb, oferece oficinas de dança, artesanato e informática
A Universidade Aberta à Terceira Idade, da Uneb, oferece oficinas de dança, artesanato e informática

Abrahão Evangelista, 65, frequenta a Universidade Aberta há cinco anos. Policial militar reformado e trombonista, foi atraído pela Uati por causa da oficina de dança de salão. Uma vez matriculado, decidiu estudar inglês e francês. “Quando eu tocava em orquestra, via os bailarinos dançando e achava impressionante, eles tinham tanta técnica. Decidi que, assim que me aposentasse, correria atrás de aprender. Agora, estou aqui”, comenta.

Para chegar à universidade, seu Abrahão dirige ou vai a pé. Ônibus, tem preferido evitar. “Quantas vezes já não pude sentar em horário de pico, enquanto um jovem ocupava a cadeira preferencial?”, protesta.

Mal do século

Há três anos, quando chegou à Associação Casa de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes (Accabem), em Lauro de Freitas,  Vera Lúcia Laranjeiras, 75, não comia, bebia água ou andava. A depressão, causada pela solidão e pela sensação de que não podia mais se virar sozinha, fez com que perdesse a vontade de viver. “Eu era só pele e osso, estava com uma cara de doente que só vendo. Não sabia se iria sobreviver”.

Antes de morar na instituição, ela vivia com um filho, mas sofria com a falta da autonomia que tinha na própria casa. Ao perceber a situação, uma amiga da família a levou à Accabem. “Sou grata a todos que me ajudaram a superar. Cheguei a passar dois meses internada num hospital de Salvador e ainda tomo remédios, mas já estou quase 100% curada”.

Vera Lúcia Laranjeiras, 75, gosta de pintar para afugentar a tristeza
Vera Lúcia Laranjeiras, 75, gosta de pintar para afugentar a tristeza

Os principais fatores responsáveis pela depressão na velhice, explica o geriatra Leonardo Oliva, são a solidão e as ausências inerentes à idade. No Brasil, de acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, são os idosos os que mais sofrem: 9,5% foram diagnosticados, enquanto que, entre a população que tem entre 18 e 60 anos, a taxa é de 7,6%.

“É uma fase de muitas perdas. Há perdas pessoais, de familiares e amigos, perdas financeiras e, especialmente, a perda da funcionalidade do corpo, que vem com a dificuldade em continuar a fazer as tarefas do cotidiano sem precisar de ajuda”, diz Oliva.

Na instituição de longa permanência – termo atual para asilo –, ao contrário do que normalmente se imagina,  Vera venceu o ‘mal do século’, expressão criada pelo escritor francês François-René de Chateaubriand para se referir a depressão e sentimentos como solidão, sensação de inutilidade e melancolia. Mas ela garante: é um caso, não uma regra. “Ajudo muitas pessoas que passam por isso por aqui. Quando a senhora que divide o quarto comigo não quer comer ou beber água, eu dou um jeito, faço até chantagem, mas ela come, ah se come!”.

Quando é alguém com quem peguei mais amizade, é doloroso, muito difícil. Mas é a natureza. Morrer vai se tornando rotina”,Vera Lúcia Laranjeiras

Quando a tristeza ameaça dar as caras novamente, recarrega a vitalidade com a pintura, arte que estudou na juventude. Mostra, com alegria, as dezenas de figuras que coloriu, já com planos de iniciar a colega de quarto à prática. “Esse livro de colorir vou dar a ela de presente. Essa é a melhor das terapias”.

Viver na instituição com mais 87 idosos, até certo ponto, vem apaziguando a convivência com a morte. “Quando é alguém com quem peguei mais amizade, é doloroso, muito difícil. Mas é a natureza. Morrer vai se tornando rotina”.

Uma lição

A inesgotável energia de dona Floricena Nogueira, 95, está gravada na pele. No ano passado, aos 94, fez duas tatuagens: primeiro, um desenho abstrato no braço, ilustrado pelo filho, o cartunista Flávio Luiz, e, depois, um pombo-correio na coxa. “É em homenagem ao meu falecido marido, porque trocávamos cartas quando éramos novinhos, antes de namorar”.

Floricena Nogueira fez duas tatuagens no ano passado, aos 94 anos
Floricena Nogueira fez duas tatuagens no ano passado, aos 94 anos

Duas vezes por semana, vai à hidroginástica e orgulha-se em dizer que é a aluna mais velha. Até pouco tempo ia de ônibus sozinha, mas um infarto, que a fez precisar de uma bengala para se locomover, não permite mais essas estripulias. Agora vai de carro, com a filha. “Mas, mesmo assim, faz de tudo, come de tudo. O médico diz que, aos 95 anos, se ela está saudável, não precisa se privar de fazer ou comer o que gosta. Sou eu que não vou deixar ela comer um pedacinho de chocolate?”, diz Cláudia, filha que mora com ela.

Entre as tantas lições que aprendeu nesses bem vividos anos, a que considera mais valiosa resume em uma frase: “Tudo passa”. “Os amigos passam, a família passa, a vida passa… É assim”. Durante a Copa do Mundo na Rússia, notou que um dos jogadores da Seleção Brasileira, 69 anos mais jovem do que ela, aparentemente segue a mesma filosofia. “Neymar tem uma tatuagem no pescoço escrito tudo passa”, começa Cláudia. E  dona Floricena arremata: “Se o Brasil ganhasse a Copa, eu tatuaria a frase no mesmo lugar!” . Infelizmente, dessa vez o hexa não veio, mas a promessa não finda – fica para 2022.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *