Passadas as eleições, é hora de se reconciliar com a parentada

Psicólogos e terapeutas dão dicas para recuperar a harmonia após a guerra no zap

Quem nunca tentou mudar a pessoa amada que atire o primeiro título de eleitor. Aquele primo já se tornou, a seus olhos, uma pessoa repugnante pelas opiniões que expõe no grupo da família. Uma tia, sempre brigona, defende posições contrárias e não deixa de devolver as provocações. As relações foram cortadas. Mas, agora que o momento da decisão pelo próximo presidente se aproxima, quem restará?

É chegada a hora da grande audiência de reconciliação das famílias. Agrupem os pares, chamem os juízes de paz e iniciem o diálogo. Até porque, deve existir solução.

As brigas e discussões no grupo do zap já alcançaram todos os níveis possíveis: uns saíram, outros xingaram, a maioria está exausta. Se há vontade, e possibilidade, de reconectar os elos rompidos no período eleitoral, comece pelo principal conselho de psicólogos e terapeutas: pense quando falar e quando silenciar.

“Parece complexo, mas o essencial é fazer o exercício da palavra. É um hábito muito grande soltar o que vem na cabeça. E, se perceber que disse bobagem, não há problema em pedir desculpa. Perceber que é uma bobagem e dizer logo depois: anula”, ensina a terapeuta Emília Queiroga.

Somente internalizado o conselho, é possível elaborar um guia prático de como proceder à assembleia. Seja nas redes sociais, até então as grandes arenas de batalha dos familiares, ou no sofá da sala da avó, alguns ingredientes são fundamentais. Mais importam as atitudes que o lugar. Primeiro: se não há vontade de diálogo, não há como dialogar. E outra: antes de se reunir com a família ou já durante uma discussão cheia de farpas e certezas, tome um banho frio e respire, calmamente, 10 vezes.

“Sim, toma um banho frio literalmente. A melhor coisa é quebrar o campo vibracional. E a dica da respiração é neurociência. Todo o seu sistema nervoso tende a harmonizar”, diz.

Para uma audiência equilibrada e democrática, a Astrologia será o regente universal. Quem acredita nos astros, seguem as dicas. Quem não, vale seguir para o próximo parágrafo democraticamente. O dia 28 de outubro será um dia de Lua Vazia, como explicam astrólogos e numerólogos. Significa que, neste domingo (28) de eleições, estaremos numa espécie da passagem e todos os sentimentos e sensações serão emanados para o universo. O astrólogo e numerólogo Ricardo Newton comenta:

“Nós iremos nos esvaziar de muitas emoções negativas e estaremos tentando nos ligar com as energias positivas. E o que vem depois será resultado das emoções positivas. É preciso purificar essas emoções”.

O grande teste das emoções já está decidido: o temido Natal em família. Ou Natal em parentes, os antigos familiares próximos. Com todos eles juntos, em suas similaridades e diferenças, é preciso colocar em prática outro exercício. Percebeu que não tem solução, o diálogo não flui e a intransigência já é o tempero da noite? Pare.

“É importante se posicionar, porque se não nos abdicamos de um direito e damos espaço à repressão. Mas, se o outro não quer ouvir, não há espaço para falar. Ali, provavelmente, não será momento de abrir a mentes de ninguém”, acredita a psicóloga e terapeuta integral Joana Bina.

Nenhuma família sairá ilesa do dia de resolver os conflitos. Uma das provas é a recente briga na família Gagliasso: a atriz Giovana Ewbanck criticou o irmão do marido Bruno Gagliasso, Thiago, após ter ouvido do cunhado “que a televisão estaria morrendo”.

A suspeita de que a briga seria causada por política confirmou-se dias depois, nesta quinta-feira (25). Thiago escreveu para o candidato Jair Bolsonaro (PSL): “Arruma um bolsa irmão aí pra mim! Que deu ruim te apoiar!”, diz a mensagem. Em resposta, o perfil do candidato disse: “Um grande abraço, Thiago”.

Pacifistas, uni-vos!
Entre Gagliassos e anônimos, o churrasco da reconciliação, como já é chamado o dia de resolver os conflitos com a parentada em eventos criados no Facebook, pode depender de uma figura: os pacifistas. Afinal, toda família tem uma. Se não, pode aproveitar o clima eleitoral para uma nova rodada de eleições e eleger o líder da mediação. “É fundamental que se tenha essa figura, que tenha mais sabedoria em lidar com o conflito”, diz Bina.

Chegou a hora de um pouco de paz, se há a disposição de tentar aparar as arestas. Na família Argôlo, o código é justamente evitar o conflito – quando possível. Num grupo de 15 pessoas no Whatsapp, todos tentaram levantar bandeira branca. Há, sim, diferenças políticas ali naquele espaço. Mas os familiares insistem em calar quando está claro que a discussão não vale o esforço. A engenheira Fabíola Ârgolo já elaborou, então, uma síntese do que espera para o Natal.

A reunião acontecerá, como em todos os anos, em Alagoinhas. A matriarca, Dona Adélia, é uma pessoa tranquila, evita perturbações. E os filhos e netos devem ser influenciados também por isso. “Acho que, se alguém iniciar algum conflito que não vale a pena, os outros tentarão acalmar. Ou falar: ‘Xi!’ [sinal de silêncio]”, torce.

O pacifista terá, portanto, uma obrigação clara: se tornar o filtro das verdades absolutas numa possível discussão entre o grupo. E esse mediador, inclusive, pode formar um grupo de outros pacifistas ao redor de si.

“Dentro desse contexto de um senso comum, de uma compreensão individual, que geralmente tomam conta das discussões, o mediador surge como uma pessoa que se coloca em outra ponta extrema, a de tentar remediar tudo isso”, esclarece a terapeuta Joana Binna.

Tempo de briga: há solução para tudo?
Por trás das brigas, pode haver, também, motivos não necessariamente eleitorais. E são esses os casos mais complicados para o juízes e testemunhas da audiência de reconciliação. Mesmo para os pacifistas. São tempos de embates de valores e o confronto desses ideais tem causado, na verdade, rachaduras. “Esse conflito de valor não é discussão. E reparar pode ser muito mais complicado. Porque existem coisas que mexem com alma. Há até possibilidade de até entrar num processo de crise existencial”, afirma a terapeuta Joana Binna.

No consultório, a terapeuta já começou a receber pacientes aflitos com a política e com seus respectivos conflitos humanos. Os pacientes chegam fragilizados, como se os embates políticos tivessem lhes retirado toda a força. Afinal, de tantas brigas, o saldo final parece ter sido uma exaustão emocional sem fim. Sem recursos pessoais, ela conclui, não há como se envolver em qualquer discussão. Recuar é o verbo. E começar a enxergar a família de uma nova maneira.

Então, se poupar também é importante, sobretudo quando não há recursos para lidar com tantas diferenças. Por que não se afastar por um tempo? Mas é importante lembrar que é família, e é uma relação de apego. Às vezes, é preciso recuar, aquietar, para ir ao encontro do outro resiliente, paciente.

“Quando crescemos, é preciso construir nosso caminho e ser diferente. Não necessariamente é igual. Daí vem o medo da rejeição, a cobrança para que o outro pense igual. Enquanto não se convence, não se para”, diz Bina.

Na casa de Lúcia (nome fictício), entender as diferenças no núcleo familiar mais próximo e confrontá-las com os próprios valores é motivo de briga quase diária. Da última vez, há pouco mais de uma semana, falaram de intervenção militar. Barril de pólvora no grupo do Whatsapp. “Uma parte começou a falar que não foi ditadura, mas uma intervenção que o povo pediu. Não tem como não discutir”, comentou. Ela, até então, tentou manter os ânimos tranquilos. Agora, não consegue nem pensar numa reconciliação.

“Depois, vendo que tem gente que acham violência justificável… Só de pensar nessas pessoas, me faz sentir uma coisa tão ruim que acho, sim, que isso será irreparável. A forma como continuarei vendo essas pessoas”, comenta Lúcia.

O contato com a família, ao que parece, mudou para sempre para ela. Nos grupos, também bombaram mensagens sobre direitos LGBTQ+. Homofóbico? “Eu não, tenho até amigos que são”, respondeu um parente após questionado sobre o apoio a pautas mais conservadoras. Novamente, uma cisão. Tamanho envolvimento com questões políticas ganharam o primeiro impulso não nestas eleições.

Na verdade, foi a partir de 2013 que as famílias começaram a preparar os frontes de batalha, após as chamadas Jornadas de Junho e com um pico registrado durante o processo de Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. É o cientista político Antônio Eduardo Oliveira quem explica como as primeiras discussões sobre política foram infladas até aqui.

“Começou com esses movimentos. Aí, ganhou força também a polarização. Porque não se trata somente de participação política. O que estamos vendo é um envolvimento. Cada lado começou a se manifestar ainda mais, querendo defender o seu lado”, destaca Oliveira.

Os lados já foram definidos há muito tempo. A grande questão parece ser a definida, bem humoradamente, pelo astrólogo Ricardo Newton. “A pessoa que lhe pariu, por exemplo, não vai deixar de ter te parido”, diz, aos risos. Então, aproveite a audiência da reconciliação para rever e pensar sobre seus laços. Quem sabe, alternar o assunto também evite conflito. Se é que você já não foi embora ou saiu do grupo ao ouvir seu tio defender algo indefensável.

Barracos envolvendo famosos

  • Expondo na internet

A casa caiu na família Gagliasso. Primeiro, o irmão do ator Bruno Gagliasso, Thiago, expôs uma série de prints de mensagens enviadas pela cunhada, a também atriz Giovanna Ewbanck. A troca de farpas, seguida da confirmação da posição política de Thiago, terminou em separações. Bruno deixou de seguir o irmão e a mãe de Gagliasso afirmou que não precisava do dinheiro do filho para sobreviver.

  • Tome block!

A apresentadora Luciana Gimenez bloqueou a mãe no WhatsApp após ela começar a começar apoiar Jair Bolsonaro (PSL). A filha, neutra na disputa entre Fernanda Haddad (PT) e o capitão reformado do Exército, já não aguentava tantas mensagens. “Ela não para de me mandar coisa (risos). Cansei!”.

  • Início de treta? 

O clima entre os irmãos Luciano Huck e Fernando Grostein também foi comentado nas redes sociais. Os dois têm posições políticas diferentes e a briga surgiu sem que eles próprios sequer se manifestassem sobre o caso.

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