Flica reúne 35 mil pessoas e injeta R$ 3 milhões na economia de Cachoeira

A oitava edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira teve aumento de 30% na venda de livros em relação ao ano passado

Bastava andar um pouco pelas ruas do centro histórico de Cachoeira, entre quinta-feira (11) e domingo (14), para perceber o fervo pela cidade do recôncavo baiano. Atraídos pela programação da oitava edição da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), mais de 35 mil turistas circularam pelo local nos quatro dias de evento, segundo estimativas da Prefeitura.

Além de ter reafirmado a região como polo cultural, a festa literária gerou empregos temporários e movimentou a economia, com uma injeção de mais de R$ 3 milhões. “Cachoeira respirou a festa. Primeiro, porque é um evento cultural. Segundo, porque há muita geração de renda. É um evento que, sem dúvidas, merece nossa atenção. Investimos R$ 100 mil e isso retornou mais de trinta vezes para a população”, revelou o prefeito da cidade, Tato Pereira (PSDB), ressaltando que a Flica já é o evento mais importante da cidade: “É a segunda maior festa literária do país – só fica atrás da Flip, de Paraty”.

As amigas Larissa, Raquel e Ayná Nunes: pegaram fila, mas não conseguiram assistir à palestra de Djamila Ribeiro (Foto de Naiana Ribeiro)

Esta edição teve ainda a nuance de combinar várias celebrações: além da programação da Flica espalhada pela cidade, a festa ficou ainda mais animada com o feriado do Dia das Crianças e os festejos de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Com isso, o fluxo turístico da cidade cresceu em mais de 200% em comparação com outros feriadões. A ocupação dos leitos dos hotéis atingiu 100%, fora os imóveis residenciais que foram alugados não só em Cachoeira como em cidades próximas, como São Félix, Santo Amaro e Maragogipe.

Os integrantes da Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda: arrecadação de fundos e divulgação da festa popular

“A movimentação foi intensa desde o primeiro dia, também por conta do feriadão. Foi a melhor Flica de todas”, garantiu a proprietária do restaurante e hotel Aclamação, Adilza Brito Oliveira, 43 anos, que fica na praça em frente à Câmara de Vereadores. Ela contratou 16 funcionários temporários para dar conta da demanda, “e mesmo assim não foi suficiente”. “As vendas aumentaram cerca de 20% em relação à edição anterior”, comemorou.

A criançada marcou presença na Flica

A vendedora ambulante cachoeirana Cleide Keu, 33, por outro lado, disse que suas vendas não aumentaram tanto com a oitava edição da Flica, mas ainda assim conseguiu lucrar mais do que o esperado. “O movimento foi legal. Em dia normal, por exemplo, vendo no máximo cinco caixas de água (cada uma com 12 garrafas). Nesses dias vendi dez. Consegui cerca de R$ 1 mil em três dias”, disse.

Muitos ônibus, inclusive escolares, transportaram as pessoas para a festa

Durante o evento, ela posicionou estrategicamente seu isopor – com salgadinhos e bebidas variadas – em frente à Igreja do Convento do Carmo, onde acontecem as principais mesas de debate do evento. “Dá uma ajuda boa na renda”, comentou sobre a Flica, que é realizada pela iContent e Cali e tem patrocínio do governo do estado, apoio da prefeitura de Cachoeira, Caixa Econômica Federal e Governo Federal.

Teve fanfarra pelas ruas…

Os integrantes da Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda também conseguiram ganhar uma grana extra com a venda de produtos personalizados como canecas, camisetas, chaveiros, imãs, entre outros. “Além de arrecadar cerca de R$ 4 mil, a gente também estava divulgando a Festa de Nossa Senhora D’Ajuda, que acontecerá de 4 a 20 novembro, aqui em Cachoeira”, destacou o presidente da associação, Aldo Figueiredo, 59. O estande, segundo ele, contribuiu ainda para a divulgação da cultura local.

… E mascarados/fantasiados também!

Filas e vendas
Com o público recorde, as filas foram inevitáveis. De Salvador, a estudante de farmácia Larissa Andaraci, 22, por exemplo, juntou as amigas Raquel Da Hora, 22, e Ayná Nunes, 23, e foi para Cachoeira no sábado (13). Fãs da filósofa Djamila Ribeiro, elas pegaram uma fila imensa e mesmo assim não conseguiram entrar no Claustro do Convento do Carmo. “Acho que a festa cresceu tanto que a estrutura não comporta mais tanta gente”, comentou.

Conceição Evaristo, homenageada da Flica este ano, foi a campeã de venda de livros: todos esgotaram

Elas tiveram a sorte de pegar um autógrafo de Djamila e assistir à mesa da homenageada da Flica, a escritora mineira Conceição Evaristo. Momentos que vão ficar guardados na memória. “Apesar das filas, foi uma experiência inesquecível, principalmente para nós, que gostamos de apreciar a cultura de forma gratuira. Não tenho palavras no vernáculo para descrever o que vivi em Cachoeira. Foi uma mistura de ancenstralidade com representatividade e força. Conhecer nossas ídolas (sic) é sinônimo de representatividade. Estamos, cada vez mais, ocupando mais espaços. Fico arrepiada só de lembrar”, disse, mostrando os pelos dos braços. Elas gostaram tanto que estenderam a estada até domingo (14).

O Convento do Carmo ficou lotado com o público da Flica

As amigas também fizeram parte do público que fez com que Djamila tivesse o livro mais vendido na LDM, livraria oficial da Flica. Quem Tem Medo do Feminismo Negro? foi a obra mais vendida do evento. Já a autora que mais vendeu foi Conceição Evaristo, que assim como Djamila teve livros esgotados. A LDM registrou aumento de cerca de 30% nas vendas em comparação com a edição anterior – totalizando mais R$ 130 mil no caixa.

Apesar de evidenciarem algo que a organização do evento já percebeu há três edições, as filas também são sinônimo do sucesso do evento na visão do coordenador geral da Flica e um dos idealizadores do evento, Emmanuel Mirdad. “Essa edição mostrou, mais uma vez, o potencial do evento e a demanda do público por eventos como esse. A Festa foi lotada em todos os aspectos. Foi a Flica das filas, o que mostra que realmente temos que ampliá-la para proporcionar mais conforto para o público, mas tudo depende de patrocínio. A gente sabe dessa demanda e pede desculpas ao público que eventualmente não tenha conseguido ver alguma atração, mas acho isso só reforça a importância de termos mais empresas apostando nessa ideia”, reforçou.

O público lotou todas as mesas da festa

Entre os desejos de Mirdad, estão incluir novos espaços no evento e uma programação para o público juvenil, além de mais mesas: “Essa Flica provou a força do black money e a classe empresarial precisa perceber a força do público negro”.

Negritude e feminismo
Entre os destaques desta edição, ele ressaltou a presença majoritária do público feminino e negro. Foi nesse público, inclusive, que a programação focou. A força da negritude e feminismo foram temas em constante debate na programação. Curador da oitava edição da Flica, o jornalista e escritor Tom Correia destacou que a escolha por esse caminho foi natural e “a Flica não está fazendo favor algum ao evidenciar mulheres negras”.

“Teremos que insistir nessa tecla até que elas tomem espaços de representatividade”, afirmou Tom. A escolha pela homenageada Conceição Evaristo também foi natural, segundo o curador, “primeiro, pela potência que tem na literatura, segundo pela representatividade da mulher negra e pelo posicionamento dela diante da vida”. Assim como na edição passada,
a programação foi pensada para dar destaque às autoras negras nos horários considerados nobres.

Ao longo dos quatro dias da Flica, com grandes apresentações artísticas e mesas redondas com autores nacionais e internacionais para públicos de todas as idades, as dez mesas de debate contaram com a lotação máxima de 350 pessoas cada e a Fliquinha também aconteceu com a casa 100% cheia em todos os dias. Cada uma das 20 apresentações foi vista por 220 pessoas. Em todas as mesas, os autores também abordaram o momento político que o Brasil atravessa. “Foi algo natural, pois estamos todos vivendo isso e receosos com o que está por vir”, comentou Tom.

Apesar do desafio enorme, ele se despede da curadoria do evento após dois anos com a sensação de dever cumprido: “Nunca imaginei que seria convidado para participar de uma festa grandiosa como essa. Me sinto muito feliz de ter servido como ponte entre os autores e o público”.

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