Confira entrevista com Cézar Mendes sobre o seu primeiro disco: “Depois Enfim”

O compositor, violonista e professor Cézar Mendes, 67, não planejava e sequer pensava em gravar um álbum com as suas músicas. Tal fato era motivo de brincadeiras entre os amigos mais próximos, como a cantora e compositora Marisa Monte. A artista dizia que isso somente aconteceria quando ele completasse oito décadas de vida. Mas o trabalho foi feito antes, com produção da própria Marisa, ao lado de Mário Caldato Jr. e Arto Lindsay. O baiano de Santo Amaro da Purificação, que mora no Rio de Janeiro desde 2010, estreou recentemente no universo dos discos com Depois Enfim, compilação de registros inéditos de músicas que, nos seus termos, “estavam espalhadas por aí”. As canções são interpretadas no álbum, dividido em três partes (ou EPs), por Fernanda Montenegro (Aquele Frevo Axé), Caetano Veloso (Carnalismo), Marisa Monte (Flor do Ipê), Adriana Calcanhoto (Depois Enfim), Djavan (Mande um Sinal), entre outros artistas, acompanhados do seu violão. Considerado uma espécie de integrante afetivo dos Tribalistas, pela presença marcante (como compositor e violonista) na primeira obra do grupo de 2002, Cézar prefere a intimidade dos estúdios do que a exposição dos shows. Por conta disso, e também pela agenda intensa dos convidados, não fará apresentação ou turnê de lançamento de Depois Enfim. Pretende passar o verão em Salvador, como sempre, junto com amigos e parceiros, e frequentar muito o bairro de Itapuã, o seu “referencial de Bahia”. Na entrevista, o compositor fala do processo de gravação do disco, do vínculo com a música e da cidade de Salvador, além do trabalho como professor de violão de cantoras como Maria Bethânia e Daniela Mercury.

Há quase uma década, o senhor disse que Marisa Monte sempre comentava, com bom humor, que você gravaria as suas músicas apenas aos 80 anos. O álbum veio antes… 

Veio, e a própria Marisa me convidou, junto com o Mário Caldato e o Arto Lindsay [produtores] para fazer o disco. Resolvi aceitar por conta dessa proposta de ter vários artistas cantando. O meu canto não contribui com a música. Mas, vou te dizer, tem tanta gente cantando mal por aí que até tomei um pouco de coragem para cantar um pouco no disco. Sei que a minha colaboração com a música é de composição e como instrumentista.  E também sei até onde eu vou. Não esperava gravar. No final das contas, foi uma maneira de reunir a minha  obra, que estava espalhada. E trabalhar com Marisa é sempre um prazer enorme. Gravamos o disco no estúdio dela, nove músicas em nove dias. Um dia inteiro dedicado a cada canção.

A sua primeira música, Aquele Frevo Axé, é uma parceria com Caetano Veloso (1998) e logo depois foi gravada por Gal Costa. Depois você fez canções com Arnaldo Antunes, Capinan, Ronaldo Bastos, Marisa Monte, Carlinhos Brown,  mas também com o jovem compositor Tom Veloso (da banda Dônica e filho mais novo de Caetano Veloso) e muitos outros. Como é o seu processo de composição? 

Eu não me achava compositor. Nunca quis. E Paula [Lavigne, produtora] falou: ‘Você deveria fazer uma música com Caetano’. Pensei logo: “Está louca, não tenho condições”. Nunca tinha feito nada. E passaram alguns dias do verão e entrei no ônibus, saindo da casa dele para Itapuã, e a melodia apareceu toda, inteira. Aí falei, já fiz uma música. Mostrei para Caetano, que estava indo para Nova York, e ele fez a letra. E em seguida Gal gravou. Agora tive a honra maravilhosa da gravação de uma versão instrumental de Aquele Frevo Axé por Kenny Barron Quintet [pianista de americano]. Gostei muito do resultado. Ele já tocou com Chet Baker, é um dinossauro do jazz. Mas a relação de composição é a seguinte: se a música não é boa, para mim, não serve. Não tenho método, a música vem. Jamais trabalho de encomenda, não funciona. E na relação com os poetas, não interfiro em nada.  O poeta faz o que ele quiser com as músicas. E aí está tudo certo.

O senhor nasceu em Santo Amaro, no Recôncavo, e tem uma ligação forte com Salvador, sobretudo o bairro de Itapuã, onde morou durante mais de duas décadas. Depois de todos esses anos no Rio de Janeiro, como enxerga Itapuã? 

Itapuã é muito especial. Eu amo Itapuã, porque é o meu referencial da Bahia, para onde sempre volto. E ainda vou voltar para lá, com certeza. Até quando morei no Porto da Barra, durante uns quatro ou cinco anos, todos os dias eu ia para Itapuã e voltava. Mas, para conhecer Itapuã de verdade, você tem que ir para a rua atrás da igreja. A parte da frente, dia de sexta, sábado e domingo, é briga, baixaria. E é um bairro que levou compositores a escreverem canções para ele. Isso é demais. Quando fiz Itapuana [música em parceria com Arnaldo Antunes], um monte de gente dizia: Caymmi já fez música para o bairro, Vinicius já fez. Aí eu pensava: ninguém morou 25 anos como eu.  E nessa época tinha aula de violão na Graça, em Ondina, na Barra, centralizava tudo por ali. Aí eu pegava a bike, saía de casa e ia até a casa de Caetano Veloso pela orla e depois pegava o ônibus. Isso durou muito tempo. Depois eu voltava.

Quando pretende concretizar esse plano de um dia voltar?

Não sei. Um amigo diz o seguinte: “Você é igual a Caymmi, nunca mais vai voltar para a Bahia”. Sempre respondo: “Não diga isso”. E vou todo verão, com uma turma grande e Caetano.

O que o senhor sentiu no processo de mudança para o Rio de Janeiro?

Que tudo é diferente. A água aqui é fria. Nunca entrei na água do mar aqui. É muito gelada. Vou quando chego à Bahia. Eu amo praia. Quando morava na Barra, saía e parava na Terceira Ponte (em Jaguaribe). A partir dali ia caminhando pela areia, chutando água, até chegar a Itapuã. Bebia um suco, comia um acarajé e voltava para começar as aulas. E aqui no Rio de Janeiro não tem brisa, não tem farinha, faltam muitas coisas. Mas, em compensação, os meus parceiros de música, Caetano, Marisa, Arnaldo, estão todos por aqui. Se não fosse por amizade, não estava aqui, não. E como a música me preenche completamente, fico feliz.

O seu vínculo com a música passa mais pelos estúdios do que pelos palcos. Raramente o senhor se apresenta em shows. E já disse que Depois Enfim não terá apresentação. Por quê? 

No caso do disco, não vai ter show porque cada um tem os seus compromissos, está todo mundo por aí, também espalhado. Marisa, Carlinhos e Arnaldo, por exemplo, estão em turnê com os Tribalistas. E fico muito nervoso para me apresentar em palco, até entrar é horrível. Passo muito mal mesmo, tomo floral. Mas no último show que participei,  tocando três músicas  com os Tribalistas, recentemente aqui no Rio, não fiquei nervoso, porque já conheço tudo, tenho intimidade com todos eles.  Mas prefiro mesmo o estúdio. O importante é que a obra fica. O restante é fantasia, glamour. Por isso prefiro também  ficar quieto.

O senhor tem vários parceiros de composição. Os encontros em torno da música, sejam para criar ou somente tocar, estão presentes de que modo em seu cotidiano? 

Sempre estou com o violão, faz parte de mim. E há alguns anos começaram os encontros na casa de Paula, inicialmente eu e Pretinho da Serrinha tocando. Foram crescendo, crescendo, e hoje vai muita gente. É muito legal, eu adoro. Paula é uma pessoa muito querida dentro da área da música e também fora da música. Então, quando ela convoca, é uma festa, são grandes encontros guiados pela música. E aí eu toco, acompanho algumas pessoas, às vezes acontece a possibilidade de fazer uma canção. E sobre  palco,  toquei nesse show  com os Tribalistas aqui no Rio de Janeiro. Foi legal. Mas as pessoas pouco me conhecem, né? As parcerias como compositor são sempre com famosos.

Qual é a sua principal referência de violonista?

Atualmente, é Gilberto Gil, totalmente. É muito original, a junção dos ritmos com as harmonias é muito bem construída. Mas João Gilberto foi o primeiro grande referencial.

O senhor já foi professor de violão de cantoras com grande reconhecimento no Brasil, como Maria Bethânia, Daniela Mercury, Vanessa da Matta, Margareth Menezes, e também teve alunos sem pretensões profissionais. Isso torna diferente a prática como professor?

Sim, essas cantoras que você citou, por exemplo, têm uma grande musicalidade a maturidade também; mas diria que é principalmente a musicalidade. E tem gente que vou dar aula e não vai… Como sou muito honesto, quando chega alguma pessoa assim, sem musicalidade, querendo aprender, falo logo para desistir. Aí a pessoa pede para tentar mais um pouco, digo “tudo bem”, e continuo ensinando.

Uma parte importante da formação musical de Tom Veloso teve a sua contribuição como professor de violão. Atualmente, o senhor é parceiro dele na música Um Só Lugar, gravada por Roberta Sá, e em outras canções. Caetano chegou a dizer que o filho é seu “discípulo”…

Tom é inacreditável, é um grande poeta. Essa turma jovem toda é muito boa. Fico muito honrado por ele ter se descoberto um músico com uma qualidade fantástica, um compositor inacreditável. E ele tem 21 anos, muito jovem, para escrever o que ele escreve. E agora canta também. Está animadíssimo com a banda Dônica e com o show com Caetano e os irmãos.

Como foi o contato e o processo de gravação com Djavan e Fernanda Montenegro?

Foi tudo muito bom. Não conhecia Djavan. Mas pensei muito nele para gravar Mande um Sinal quando fiz a música com Ronaldo Bastos. E falei com Marisa, vou mandar para Djavan. Pensei que a força da canção faria com que ele gravasse. Dito e certo. E, geralmente, Djavan grava no estúdio dele. Não gosta de gravar em outros lugares. Mas me disse: “Com você eu vou a qualquer lugar”. E aí gravamos no estúdio da Marisa e ficamos amigos. Já Fernanda conheci através de Nanda [Fernanda Torres], no sítio dela. Convidamos para participar e ela canta Aquele Frevo Axé. Ela tem uma voz maravilhosa e um canto profundo.

Quais são os artistas que o senhor mais gosta e escuta? 

João Gilberto, Dorival Caymmi, o grande compositor americano Cole Porter e a cantora Ella Fitzgerald. Dos contemporâneos, gosto de Pitty, que faz um rock’n roll maravilhoso. Foi a artista que mais me tocou nos últimos tempos. Ela é uma pessoa muito simpática e tem uma qualidade musical imensa. E, na época em que apareceu, precisou gravar aqui porque não tinha espaço em Salvador. Deve ter encarado uma barra muito grande. Mas ganhou vários prêmios em seguida. Conheci Pitty através de Arnaldo, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. A primeira coisa que ela me perguntou foi: “Qual é o bilhete premiado da loteria esportiva?” (risos). Gosto também da banda Dônica, do Tom, que está até gravando um disco, de Teresa Cristina, que, além de grande cantora, é uma compositora extraordinária e ainda não mostrou as suas músicas.

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