Incêndio no Museu Nacional é um alerta para patrimônio histórico da Bahia

A perda irreparável causada pelo incêndio no Museu Nacional, na noite do último domingo, 2, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, é um alerta para a situação dos vários museus históricos e científicos da capital baiana, cidade que reúne diversas instituições  e um acervo de valor incalculável.

O Museu de Ciência e Tecnologia, o primeiro da América Latina, localizado na Avenida Jorge Amado, foi inaugurado em 1979 pelo ex-governador da Bahia Roberto Santos.  O equipamento está fechado e abandonado. “É um museu de uma importância enorme. Deveria servir para encaminhar jovens na ciência, mas os governos subsequentes não deram  a atenção suficiente”, lamenta o professor.

Segundo Santos, a população precisa protestar e exigir dos governantes uma solução. “Tendo percebido falta reação para que consertem essa situação”. Além de ex-governador, o professor Roberto Santos é o fundador da Academia de Ciências da Bahia, além de ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) (1967-1971).  Como grande incentivador da ciência no estado, ele vê com tristeza o incêndio do Museu Nacional. “O que vemos no noticiário é que estava mal acompanhado. O conteúdo estava descuidado”, diz.

Para o presidente da Academia de Ciências da Bahia, Jailson de Andrade, o museu de Ciência e Tecnologia é uma referência e marcou várias gerações. “Há dois anos há um movimento e um projeto do Ministério da Ciência e Tecnologia para a retomada das suas atividades, mas os recursos ainda não chegaram. Há um esforço por parte de professores de arquitetura, mas o processo ainda é  lento”, diz.

“Não há  clareza sobre o destino que se quer dar ao museu. Reativar seria a  prioridade, para que a população possa aproveitá-lo”, defende Andrade, para quem o acervo do museu se degradou bastante. “Salvador tem uma temperatura quente e úmida. A durabilidade do acervo começa a se danificar e  precisa estar  protegido”, afirma.

MAM

De outubro de 2016 a novembro de 2017, as obras de reforma do Museu de Arte Moderna (MAM), considerado um dos pontos turísticos mais importantes da capital baiana, ficaram paralisadas e só foram retomadas após denúncias de abandono feitas pela imprensa.

Em julho do ano passado, o governo do estado  vistoriou o local e anunciou que iria investir mais de R$ 7,7 milhões na reforma, que incluía a requalificação dos famosos arcos e do  Parque das Esculturas. Mesmo em obras, o museu está em funcionamento.

O Corpo de Bombeiros foi procurado para falar da situação dos museus estaduais, mas até o fechamento desta edição  não respondeu às solicitações da reportagem.

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Boa conservação

Mas  há museus projetados, implantados ou restaurados nos últimos cinco anos, como os espaços Pierre Verger da Fotografia Baiana e Carybé de Artes, situados nos Fortes Santa Maria e São Diogo, na Barra; a Casa do Rio Vermelho, antiga casa dos escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, no bairro de mesmo nome; e Casa do Carnaval, no Pelourinho.

Segundo a secretaria municipal de Cultura e Turismo, todos eles possuem  infraestrutura e equipamentos licenciados para o combate a incêndios. O Pierre Verger, o Carybé de Artes e a Casa do Rio Vermelho têm seguro contra incêndios e seis extintores em cada espaço.

Até o fechamento da reportagem, o órgão  municipal não repassou informações sobre a Casa do Carnaval, já que o museu não funcionou nesta segunda-feira, 3.

Ainda de acordo com a pasta municipal, os espaços passam por validações permanentes para a cobertura de incidentes como esses, bem como seguem todas as normas de manutenção. O custo para manter esses equipamentos é de aproximadamente R$ 3,6 milhões por ano. Cerca de R$ 26,3 milhões foram investidos na implementação deles.

Acessibilidade

Segundo o coordenador do Museu Geológico da Bahia, Heli de Almeida Sampaio Filho, o espaço localizado no bairro da Vitória e inaugurado em 1982 apresenta instalações em boas condições. “O material do acervo aqui é inerte ao fogo, menos propício a incêndios, em  comparação aos do Rio de Janeiro, onde havia fiação elétrica exposta e infiltrações. Todos os anos, a Prefeitura de Salvador e o Corpo de Bombeiros avaliam essas condições. A nossa maior dificuldade é  acessibilidade de pessoas com deficiência”, explica.

O museu ainda não dispõe de elevador para que o visitante com dificuldades de mobilidade tenha acesso ao 2º andar do edifício. Segundo o coordenador, existe um projeto e uma comissão já foi formada para tentar resolver a questão junto ao governo, mas ainda depende da liberação de recursos.

A Universidade Federal da Bahia (Ufba) se manifestou em nota sobre a necessidade de se exigir providências dos órgãos públicos para a recuperação do Museu Nacional do Rio e criticou os profundos cortes de verbas públicas para a educação, cultura e a ciência no país.

O documento diz, ainda, que “o incêndio clama pela elaboração de políticas de respeito à preservação da memória do país, de manutenção de suas universidades públicas e tantos outros equipamentos voltados à educação, à cultura e à ciência”.

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