Sambista Dona Ivone Lara morre aos 97 anos no Rio de Janeiro

A sambista Dona Ivone Lara morreu aos 97 anos na noite desta segunda-feira (16) no Rio de Janeiro. Ela estava internada há duas semanas em um hospital do Leblon com uma infecção renal.

A artista tinha completado 97 anos no último dia 13.

São muitas as facetas de Dona Ivone Lara a serem lembradas por amigos e fãs. Mãe, esposa, assistente social, cantora, compositora, a carioca nascida em Botafogo, na zona sul do Rio, e criada em Madureira, na zona norte, transitou por diferentes universos ao longo de quase um século de vida.

Chegou ao mundo em 13 de abril de 1921 com o nome de Yvonne, cuja grafia seria alterada mais tarde, por causa da carreira artística. A música estava no sangue. A mãe, Emerentina da Silva, cantava em ranchos nos quais o pai, João Lara, tocava violão de sete cordas. Os dois se conheceram durante uma apresentação do tradicional Rancho Ameno Resedá.

A infância humilde foi marcada por uma sucessão de tragédias. Perdeu o pai aos quatro anos. A mãe casou-se novamente, mas faleceu poucos anos depois. Na época, Ivone vivia no Colégio Municipal Orsina da Fonseca, então um internato. Entre suas professoras estavam Lucília Villa-Lobos, esposa do maestro Villa-Lobos, e Zaíra de Oliveira, vencedora do concurso da Escola de Música do Rio de Janeiro em 1921.
Com elas, Ivone aprendeu a ler partituras e desenvolveu o gosto pela composição de melodias. A primeira música, “Tiê-tiê”, teria sido escrita quando Dona Ivone tinha 12 anos, em parceria com o primo, Mestre Fuleiro, que se tornaria um influente sambista da escola de samba Império Serrano. Na juventude, temendo apresentar suas criações e ser recriminada por ser mulher, Dona Ivone pedia que o primo mostrasse suas composições como se dele fossem.

Além de Mestre Fuleiro, outros laços familiares foram importantes para o desenvolvimento musical de Dona Ivone Lara. Aos 26 anos, casou-se com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, fundador da escola de samba Prazer da Serrinha. Foi Oscar quem levou o amigo Silas de Oliveira para a agremiação. Em 1965, Dona Ivone entraria definitivamente para a história do samba. Com Silas de Oliveira e Bacalhau, compôs “Os Cinco Bailes da História do Rio” —era o primeiro samba-enredo oficial assinado por uma mulher.

O principal parceiro, no entanto, foi Délcio Carvalho. Os dois também se conheceram por intermédio do marido de Ivone, Oscar. Dona Ivone escrevia a música, e Délcio, as letras. Compuseram dezenas de canções, entre elas “Sonho Meu”, gravada por vários artistas. “A gente ficava numa apreciação de um pelo outro, sabe? Sentava, ouvia, trocava ideias. Nunca aconteceu de ele me mostrar uma letra e eu ficar na dúvida, achar que estava ruim ou diferente do que eu tinha pensado. De todas eu gostei”, me disse em entrevista para o livro “Nasci para Sonhar e Cantar” (Editora Record, 2009). O mais recente parceiro foi Bruno Castro, com quem compôs “Nas Escritas da Vida”.

A música, no entanto, só se tornou a principal profissão quando Dona Ivone se aposentou daquela que considerava sua carreira primária. Ao se apresentar a admiradores, ela dizia: “Ivone Lara, assistente social”. Quando jovem, movida pelo desejo de ter um emprego estável, matriculou-se na Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, no Rio de Janeiro. “Muita gente fazia enfermagem. Eu mesma trabalhei com uma porção de pessoas do meio do samba dentro dos hospitais… Trabalhei, por exemplo, com a mãe do Paulinho da Viola, mulher de seu Paulo Faria, que já era músico respeitado. Mas ela mantinha o seu emprego estável.”

A profissão de enfermeira e, mais tarde, assistente social, também rendeu testemunhos de fatos importantes da história brasileira. Dona Ivone trabalhou com Dra. Nise da Silveira, uma das pioneiras do tratamento mais humano em clínicas psiquiátricas.

Depois da aposentadoria, aos 56 anos, a carreira de cantora e compositora decolou. Dona Ivone se apresentou na Europa, na África, nas Américas. Em 2002, recebeu o Prêmio Caras de Música na categoria Melhor Disco de Samba, com o CD Nasci para Sonhar e Cantar. Em 2010, foi a grande homenageada no Prêmio da Música Brasileira. Dois anos mais tarde, ela se tornaria o tema do samba-enredo da escola do coração, a Império Serrano.

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