Tristeza e revolta: Universitário agredido na Graça tem morte cerebral

O estudante de engenharia mecânica Kaíque Moreira Abreu, 22, teve morte cerebral, confirmou nesta quarta-feira (14) um tio do rapaz. Ele está internado no Hospital Português desde que foi agredido ao voltar do carnaval, na Graça, na madrugada de sexta (9). Segundo o familiar, os aparelhos de Kaíque serão desligados amanhã. Edson Rodrigues dos Santos, 27 anos, foi preso pelo crime.

“Estava brincando carnaval e ele se perdeu do primo e dos amigos que estavam com ele. Inclusive, ele tinha até me chamado, mas eu falei que não iria porque teria que trabalhar. No que ele se perdeu, foi voltar para casa e, simplesmente, foi surpreendido com um murro na boca. Assim que ele caiu no chão, o agressor ainda deu um chute na cabeça. E foi confirmado que ele teve uma morte cerebral. Infelizmente perdemos um ente querido. Uma vida se foi. E a gente só quer justiça. Foi um crime gratuito, sem explicação, sem motivo. Uma perda pra família. Eu cresci, fui criado com ele, mesmo sendo tio, temos praticamente a mesma idade. Fomos criados juntos, tivemos infância juntos. É muito difícil”, disse o tio Hayron Hamilton à imprensa esta tarde.

No momento do ataque, Edson estava acompanhado de outros quatro amigos – desses, dois eram adultos e dois adolescentes de 15 e 17 anos. No entanto, segundo a polícia, somente Edson agrediu o rapaz.

De acordo com o delegado José Bezerra Júnior, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Edson e os outros foram localizados pelas imagens das câmeras de segurança que registraram o crime. Através delas, a polícia localizou o veículo  em que fugiram após a agressão. O caminhão estava estacionado na Rua Manoel Barreto.

Na noite de terça-feira (13), policiais encontraram os quatro colegas de Edson no caminhão, indo em direção ao circuito Barra-Ondina (Dodô). Ao serem abordados, eles confirmaram que estavam envolvidos na ocorrência. Foi a partir dos amigos que Edson foi encontrado e preso por policiais do DHPP.

A justificativa de Edson para cometer o crime foi que ele havia sido agredido no circuito e quis “descontar” em alguém. Quando voltava para o caminhão, que o levaria junto com os amigos para casa, viu Kaíque subindo a ladeira e o atacou com murros. O jovem retornava do Carnaval, por volta de 3h, quando foi atacado.

‘Sem motivo, sem um porquê’, diz síndica que cedeu imagens de agressão na Graça

“Ele informa que estava vendendo queijinho nessa noite (de sexta-feira), e, em dado momento passou a curtir. E, palavras dele, teria se envolvido em uma discussão, uma briga. Nessa briga, ele sofreu uma agressão. No retorno do carro para ir para casa, ele resolveu revidar essa agressão em qualquer pessoa que passasse no momento. Infelizmente, o jovem Kaíque sofreu essa agressão”, afirmou Bezerra. Ainda de acordo com o delegado, o suspeito não resistiu à prisão.

A delegada Carmem Dolores reforçou que não houve motivação para o ataque. “Não houve nada que ensejasse isso. Na realidade, foi uma coisa extremamente de graça, violenta. Ele diz que ‘simplesmente fez uma besteira’. O menino (Kaíque) veio andando e ele se aproximou, já ‘incontinente’, e desferiu, pegou [Kaíque] totalmente desprevenido”.

Os outros dois homens e os dois adolescentes vão responder por omissão de socorro. Edson vai responder por homicídio.

‘Eu vim gingando e meti nele’, diz acusado de matar estudante na Graça

 

“Eu estava com raiva porque apanhei. Aí eu vim gingando e meti nele. A minha intenção não era de matar”, disse o pintor Edson Rodrigues dos Santos, 27 anos. Ele foi preso na madrugada desta quarta-feira (14) por agredir o estudante de engenharia mecânica Kaíque Moreira Abreu, 22, na sexta (9), no bairro da Graça.

O jovem teve morte cerebral confirmada pela família na tarde de hoje, na sede do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), na Pituba, minutos depois do agressor ter sido apresentado à imprensa. Os aparelhos no Hospital Português devem ser desligados nesta quinta-feira (15).

Durante a apresentação, Edson chegou a tratar o caso como uma fatalidade e disse que apenas falaria na presença de um juiz. Mas, ao sair da coletiva, ele disse estar arrependido do crime. “Eu não queria matar. Eu apanhei e fiquei com raiva. Meu celular ficou todo quebrado”, disse o acusado.

De acordo com a polícia, além de Edson, outros três adolescentes estavam no momento da agressão. Mas apenas um deles, de 15 anos, foi localizado. Um de 17 e um outro de idade não revelada ainda não foram encontrados. A polícia ressaltou que apenas Edson agrediu o estudante. Os adolescentes devem servir de testemunhas.

O motorista do caminhão que deu carona para o grupo depois que o estudante foi agredido também foi localizado. Bruno Ribeiro Fernando Batista, 30, vai responder por omissão de socorro e favorecimento pessoal. Ele e o garoto de 15 anos estão custodiados na sede do DHPP. O adolescente deve ser encaminhado à Delegacia do Adolescente Infrator (DAI). Já o motorista deve assinar um termo circunstanciado e Edson ficará a disposição da justiça.

Investigações
Segundo a delegada Carmen Dolores, titular da 14ª Delegacia (Barra), a polícia só conseguiu chegar ao acusado porque imagens de câmeras de segurança da rua captaram a placa e o modelo do caminhão. O motorista que deu fuga a Edson estava na noite desta terça-feira (13) nas imediações da Avenida Centenário. Com ele estava o adolescente de 15 anos que prestava serviços ao motorista.

Ainda segundo a delegada, o motorista conhece um amigo de Edson. O veículo, no dia do crime, estava estacionado a cerca de 10 metros de onde o crime aconteceu.

De acordo com o delegado José Bezerra Júnior, diretor do DHPP, nas imagens das câmeras de segurança é possivel ver que o veículo estaciona na rua por volta das 22h da quinta-feira (8). E, já por volta das 2h50, é possivel ver duas pessoas caminhando rápido em direção ao caminhão, um deles seria o Edson e o outro seria o adolescente de 15 anos.

“Essa agressão seria em qualquer pessoa que estivesse passando e, infelizmente, era o Kaíque que passava na hora. Ele (Edson) visualizou o Kaíque e inicialmente deferiu um soco, a vítima veio a cair, e em seguida ele também chutou. Depois saiu do local utilizando o veículo que estava estacionado. Todos presenciaram muito bem o acontecido, mas ninguém se interessou a prestar socorro”, explicou o delegado.

Até o momento, Edson vai responder por tentativa de homícidio. Mas assim que o hospital entrar em contato com à polícia para confirmar a morte do estudante, o acusado passa a responder por homicídio, podendo pegar até 30 anos de prisão.

Dia do crime
De acordo com a família, era o terceiro Carnaval do estudante que se formaria no próximo ano. Às 2h30, Kaíque saiu da casa de um amigo, na Rua Manoel Barreto, na companhia de um primo e mais três amigos para o circuito Dodô. Minutos depois ele se perdeu do grupo no meio da multidão. Sozinho, Kaíque decidiu voltar para casa, às 3h, quando a pouco menos de 500 metros foi supreendido com um soco no rosto. Ao cair, a vítima ainda levou um chute do agressor.

Desacordado, o estudante ainda chegou a ser socorrido por uma família que passava pelo local. Um dos membros era uma médica, que aguardou no local até a chegada Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) às 3h30.

Para a família, o que resta agora são as lembranças de um menino brincalhão e o sentimento de justiça. Segundo um tio do estudante, Hayron Hamilton, Kaíque tinha muitos sonhos e era conhecido por ser “chorão” pois não gostava de ser contrariado.

” Uma vida se foi. E a gente só quer justiça. Foi um crime gratuito, sem explicação, sem motivo. Uma perda pra família. Eu cresci, fui criado com ele, mesmo sendo tio, temos praticamente a mesma idade. É muito difícil. Ele sempre foi o chorão da família, a gente pertubava e ele chorava”, conta o tio.

A tia, a autônoma Claúdia Moreira, 39, disse que o pai e mãe de Kaíque estão abalados e ainda não acreditam na morte do filho. Os familiares pensam na possibilidade de doação dos órgãos. “Kaíque tinha muitos sonhos que precisavam ser realizados. Ele iria se formar no próximo ano. Ele (Edson) destruiu toda uma família, mas foi com a família errada porque vamos cobrar justiça”, acrescentou.

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