Argentina enfrenta greve e manifestações contra reforma da previdência

Violentos confrontos entre a polícia e manifestantes sacudiram Buenos Aires ontem, na praça do Congresso, onde deputados debatiam a polêmica reforma do sistema de previdência e benefícios sociais promovida pelo governo do presidente Mauricio Macri.

A confusão durou quatro horas. Ativistas lançavam pedras, garrafas e rojões. Os batalhões policiais fizeram eles recuarem com gás lacrimogêneo e balas de borracha, deixando vários feridos dos dois lados.

Essa será a segunda vez que o governo tentará aprovar o projeto, que também regulamenta benefícios sociais. Um sessão teve que ser suspensa na quinta-feira passada, devido aos enfrentamentos da polícia com manifestantes, que deixaram feridos e detidos nas redondezas do Parlamento.

Apesar dos confrontos, a Câmara de Deputados tinha iniciado a sessão para avaliar o projeto já votado no Senado, mas teve que fazer uma pausa devido à gravidade dos confrontos.

Apesar da violência gerada por um núcleo de manifestantes, a maior parte do protesto foi pacífica.

Hugo Reynoso, aposentado do município de 74 anos, relatou à AFP que recebe a pensão mínima, de 400 dólares mensais, e que teme que sua renda caia com a reforma, em um país com inflação superior a 20% ao ano há uma década. “Se aproveitam dos mais fracos para cobrir os déficits do Estado, em vez de pedir aos poderosos”, lamentou.

Preocupação

“Se perdermos poder aquisitivo não sei como vamos pagar medicamentos, contas de gás e luz, tudo aumenta muito rápido”, disse Reynoso.

“Os deputados vão votar a favor do governo porque se não fizerem isso não vão chegar às verbas do Tesouro. Em qualquer lugar do mundo isso se chama extorsão”, afirmou um dos líderes da oposição, o chefe do bloco peronista de centro-esquerda, Agustín Rossi.

O governo assinou um pacto fiscal com 23 das 24 províncias, em sua maioria governadas por opositores peronistas, em troca de uma promessa de dividir entre elas o dinheiro economizado pela reforma.

No meio da manifestação e envolvido em uma bandeira argentina, o aposentado administrativo Jorge López, de 72 anos, disse que “é conhecida a política neoliberal que espreme os desprotegidos”.

“Se trabalha até os 70 anos, isso tira vagas de emprego dos mais jovens”, disse López.

Macri propõe elevar a idade mínima para a aposentadoria, de forma opcional, de 65 para 70 anos para os homens e de 60 para 63 anos para as mulheres.

Redução do déficit

O chefe de gabinete, Marcos Peña, afirmou que a reforma “é uma boa lei”. O governo afirma que os aposentados não vão perder poder aquisitivo, mas a oposição e sindicatos temem que as aposentadorias sejam impactadas pela inflação – superior a 20% ao ano na Argentina há uma década.

O país acompanha a volta das cenas de repressão nas ruas que não eram vistas desde a revolta que derrubou o governo do conservador Fernando de la Rúa em 2001.

“Respeitamos o eleitorado que lhes elegeu (nas eleições de meio de mandato em outubro), mas não para que tomem medidas que prejudicam grande parte da sociedade. Vamos protestar com uma paralisação”, disse Carlos Acuña, um dos líderes da principal central sindical CGT (peronista).

A CGT iniciou, ao meio-dia, uma greve geral de 24 horas.

O governo quer mudar a forma de calcular a aposentadoria para reduzir o déficit fiscal, estimado em 5% do Produto Interno Bruto (PIB). O novo cálculo permitiria economizar, em 2018, cerca de 10 bilhões de pesos (5,5 bilhões de dólares), um quinto do déficit.

O deputado Pablo Kosiner, chefe de um bloco peronista aliado de Macri, anunciou na sexta-feira que concordou em formar quórum para a votação da lei, em troca de um bônus adicional para os afetados. Macri está em minoria no Congresso, mas conseguiu apoio deste bloco.

A reforma impacta a receita de cerca de 17 milhões de aposentados, pobres e deficientes, entre outros, em uma população de 42 milhões.

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